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“É preciso entender a máquina”

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04.03.2026

Eram duas da tarde, mas parecia ser já noite. O Einstein defendia que o tempo é relativo, e que tempo e espaço estão interligados, explicando que quanto mais rápido uma pessoa se move pelo espaço, mais devagar se move o tempo. Eu tinha corrido a manhã toda, e talvez por isso aquela metade de dia parecesse já tão comprida. O Einstein dizia também que o tempo é curvo, contudo a experiência demonstrava-me, nesse dia em particular, que é bicudo, e contingentemente cheio de esquinas. Eram duas da tarde, mas no meu corpo, fundamentalmente na área reservada à minha cabeça, eram onze da noite.

Depois de várias aterragens forçadas na pontualidade, do empilhamento de compromissos e acontecimentos vários num espaço reduzido de horas, a relatividade do tempo parecia-me uma evidência. Ainda assim, sou incapaz de entender convictamente aquele famoso exemplo hipotético que diz que se nos metêssemos num foguetão durante um ano, a uma velocidade superior à da luz, percorrendo o perímetro da órbita terrestre, e depois regressássemos à Terra, as pessoas cá em baixo estariam dez anos mais velhas, como numa magia de uma máquina de tempo.

Parece-me ficção, apesar de reconhecer a sensação em reuniões com antigos colegas de liceu, ou experiências de ginástica na idade adulta, em que não obstante terem passado apenas 20 anos desde a última vez que vi os colegas, ou que tentei fazer o pino, a realidade do confronto com o presente me demonstra inevitavelmente que afinal se passaram 200 anos. E guardo sempre compaixão pela astronauta fictícia que decidiria tirar esse tempo sabático na órbita terrestre, para regressar e espreitar através do retângulo do capacete a súbita transformação do seu ex-namorado engatatão, num homem de meia-idade com três filhos de três mulheres, abatido pelo quotidiano maçador da vida terrestre (se até o próprio Einstein teve de alancar com horas intermináveis no aborrecidíssimo emprego que teve como perito técnico de aprovação de patentes).

Enquanto procurava no ecrã do telefone a hipótese mais rápida de obter uma refeição que aterrasse aos meus pés estafados, refleti instintivamente sobre o........

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