Para onde vamos todos viver?
Chama-se María del Carmen Abascal, mas em Madrid ninguém a trata por outro nome que não Maricarmen, e é assim que aparece nas faixas que lhe estenderam pelo bairro do Retiro durante estes últimos meses. Entrou na casa do número 46 da rua Alcalde Sainz de Baranda em 1956, com 17 anos, pela mão dos pais, e de lá saiu esta quarta-feira de manhã, com 87, numa maca, à quarta tentativa de despejo, depois de a polícia ter carregado sobre as centenas de pessoas que passaram a noite ao relento a fazer-lhe de muralha. Dizem que nem umas horas lhe deram para juntar as coisas de uma vida inteira, o que, a ser verdade, e tudo indica que é, diz mais sobre quem a pôs na rua do que qualquer relatório. Foi de ambulância para o hospital. A casa ficou para quem a comprou.
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Li a história como se lêem as histórias que podiam ser as nossas, e o que me ficou a ecoar não foi a comoção, que é evidente e chega sozinha, mas a mecânica fria do processo, que é sempre onde se aprende alguma coisa. O pai assinou em 1956 um contrato de renda antiga, daqueles que na altura se assinavam para a vida. Quando morreu, o contrato passou à mulher, e quando a mulher morreu, em 2005, passou à filha, com a proprietária de então a aceitar tudo sem levantar uma sobrancelha. Só que em 2018 o prédio mudou de mãos, e quem o comprou fez o que hoje se faz com prédios antigos no centro de qualquer capital europeia: começou por oferecer à inquilina a compra do andar por 247 mil euros, quantia que uma pensionista de 80 anos, sem banco nenhum disposto a emprestar-lhe um cêntimo, obviamente não podia pagar, e a seguir foi a tribunal sustentar que aquela segunda transmissão do contrato só podia ter durado dois anos, porque assim manda a lei espanhola de arrendamento de 1994, a não ser que o filho que fica na casa tenha uma incapacidade reconhecida de pelo menos 65%. A Maricarmen tem cinquenta. Faltam-lhe quinze pontos numa tabela para ter direito a morrer na cama onde sempre dormiu. Ganhou em primeira instância, perdeu na Audiência Provincial, e em Março deste ano o Supremo fechou-lhe a porta. Pagava qualquer coisa como 400 e tal euros por mês e pediram-lhe mais do triplo, e quando uma escritora que quis manter o anonimato se ofereceu para pagar a diferença até ao fim dos dias dela, a proprietária disse que não. Até o Comité dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais das Nações Unidas tinha pedido a Espanha, em Junho, que explicasse como tencionava evitar que aquela mulher fosse posta na rua sem alternativa. A resposta chegou esta manhã, em carrinhas da polícia.
A proprietária, diga-se, faz questão de não ser confundida com um fundo. Escreveu aos jornais a pedir que não lhe chamem fundo abutre, meteu uma queixa-crime contra o sindicato de inquilinos que lhe chamou isso mesmo, e........
