Não há almoços grátis
Portugal passa a vida a proclamar-se moralmente indignado com a corrupção, mas depois rende-se com uma facilidade quase enternecedora ao culto do autarca eficaz, mesmo quando esse culto assenta precisamente sobre tudo aquilo que, em abstracto, juramos condenar. No nosso imaginário colectivo, parece já existir uma distinção muito própria entre corrupção má e corrupção boa. A má é a dos outros, a que não deixa obra feita, a que não produz rotundas, jardins arranjados ou passeios lavados. A boa é a que “ao menos faz”. E, uma vez aceite esta lógica, a ética deixa de ser princípio para passar a ser secundário.
É talvez aí que começa a verdadeira tragédia: quando uma parte do país decide que a decência pode ser relativizada desde que a gestão pareça eficaz. Como se a obra pública fosse absolvição moral. Como se a competência administrativa tivesse o poder de apagar o abuso, o favorecimento ou a promiscuidade entre funções públicas e interesses privados. Não tem. O que tem, isso sim, é a capacidade de revelar uma sociedade cansada, resignada e perigosamente disponível para trocar integridade por resultados visíveis.
Lamentamos a falta de valores, a podridão do sistema, o descrédito das instituições. Mas o sistema não é uma entidade mística, suspensa acima de nós, como se do Olimpo se tratasse. O sistema (a quem muitos atribuem as culpas) faz-se também do que toleramos, do que desculpamos e, sobretudo, do que premiamos no momento de votar. E quando se continua a celebrar alguém cuja carreira pública está manchada por suspeitas, acusações e condenações, o sinal que se dá é profundamente revelador: o problema nunca foi verdadeiramente a corrupção… foi apenas a corrupção que não ofereceu contrapartida suficiente para ser romantizada.
Naturalmente, compreendo que um presidente de câmara e os seus órgãos tenham de participar em almoços de trabalho, reuniões institucionais e encontros com agentes económicos. A vida política e administrativa não se faz num vazio. Desses contactos podem nascer oportunidades e investimentos úteis para os concelhos. Isso não me choca. O que me parece notável é a facilidade com que se esquece uma distinção básica: uma câmara municipal é um órgão público, não é uma empresa privada. Não vive da informalidade, nem da lógica de quem resolve tudo à mesa, entre copos, cigarros e boas relações. Vive, ou deveria viver, de regras, de transparência, de escrutínio e de procedimentos. A maioria dos contratos relevantes deve obedecer a concurso público, não a afinidades pessoais nem a cumplicidades cultivadas em ambientes de proximidade.
E depois há uma verdade antiga, brutal e sempre actual: não há almoços grátis. Quando o poder político se senta demasiadas vezes à mesa com interesses particulares raramente estamos perante mera cordialidade institucional. Há quase sempre uma assimetria, uma expectativa, uma porta entreaberta, uma vantagem futura. Alguém sai mais beneficiado do que o outro. E, por regra, não é o cidadão comum nem “o contribuinte”, como diz o povo.
Porém, tenho a dizer que no meio deste mediatismo, talvez o mais deprimente seja perceber como Portugal se transformou num país-bolha. Um país que parece viver fechado num mundo só seu, entretido a discutir a espuma das ondas enquanto o mar avança. Deve haver por aí um universo paralelo onde habitamos todos, suficientemente distante da crise na habitação, da degradação dos serviços públicos, dos salários miseráveis, da estagnação económica, da fuga de talento e do cansaço generalizado de quem trabalha e não vê futuro. Porque, perante tudo isso, o que aparentemente nos mobiliza, apaixona e ocupa o espaço público são os almoços e os charutos de Isaltino Morais (e não só).
E talvez seja isso que melhor nos define. Não apenas o comportamento dos políticos, mas a hierarquia absurda das nossas obsessões. Um país que reduz o debate público ao pormenor pitoresco, à caricatura, ao folclore de uma figura que muitos transformaram em símbolo de eficácia, mesmo quando esse símbolo transporta consigo tudo aquilo que deveria envergonhar uma democracia (quase) madura. Discutimos o acessório como se fosse essencial, e o essencial como se fosse um incómodo de que se fala por obrigação.
No fim, sobra uma pergunta desagradável: será que queremos mesmo um país melhor, ou queremos apenas gestores suficientemente competentes para tornar tolerável aquilo que, noutras circunstâncias, chamaríamos de bom profissionalismo? Porque enquanto continuarmos a venerar quem encarna essa contradição, não estaremos a corrigir o sistema. Estaremos apenas a confessar, com um cinismo cada vez menos disfarçado, que aprendemos a conviver bem com ele.
