Fragmentação da Europa (I)
Nota prévia: o mapa “Fragmentação da Europa (nacionalismos e identidades etnolinguísticas)” não pretende antecipar o futuro do continente nem propor qualquer agenda política.
Participei no Contra-corrente sobre imigração. As perguntas do José Manuel Fernandes, Helena Garrido e João Miguel Santos foram interessantíssimas e durante a conversa referi que os nacionalismos e as identidades etnolinguísticas facilmente poderiam fragmentar a Europa em mais de 200 Estados.
Este artigo é a primeira parte de uma reflexão sobre o tema. O mapa tem como critério a máxima fragmentação historicamente justificável, ou seja, cada povo etnolinguístico, cada antigo reino, ducado, principado, marca, cantão ou região histórica com identidade própria.
1 Como foi construído o mapa
Ao longo dos séculos, a Europa conheceu sucessivas vagas de afirmação nacional, regional e cultural. Muitas das fronteiras atuais são recentes, resultando de processos de centralização, unificação ou redefinição territorial ocorridos sobretudo entre os séculos XVII e XX. Contudo, sob a superfície dos Estados contemporâneos subsistem comunidades que preservam línguas próprias, tradições seculares e identidades anteriores à consolidação dos Estados-nação modernos.
É precisamente a partir dessa realidade que o mapa se constrói. Ilustra um cenário hipotético em que essas identidades recuperam protagonismo e reivindicam formas de soberania ou autodeterminação. O resultado é uma Europa profundamente fragmentada: de cerca de cinquenta Estados reconhecidos internacionalmente para um mosaico com mais de trezentas entidades políticas.
A primeira observação é óbvia: isto é um regresso ao passado. Uma transformação desta magnitude representa uma rutura com o modelo do Estado-nação, consolidado entre os séculos XVII e XIX, aproximando-se da complexidade política da Europa medieval e moderna, quando o poder se distribuía por reinos, ducados, principados, cidades livres, bispados e múltiplos territórios autónomos. Nessa época, as fronteiras políticas raramente coincidiam com fronteiras linguísticas ou culturais. Identidades sobrepunham-se e a soberania era frequentemente negociada, partilhada ou fragmentada. O Sacro Império Romano-Germânico poderá ser o exemplo paradigmático, mas a Península Itálica, os Países Baixos, os Balcãs........
