A tirania da ronda de financiamento
Há 20 anos que falo com jovens empreendedores. Muitos chegam com uma apresentação preparada para investidores antes de terem tido uma conversa séria com clientes. Sabem qual poderá ser a próxima ronda, imaginam o exit, conhecem os múltiplos e o discurso certo para impressionar o ecossistema. Mas, por vezes, ainda não sabem se alguém está disposto a pagar pelo produto.
Talvez os ventos estejam a mudar porque, ultimamente, tenho encontrado mais empreendedores que preferem financiar as suas empresas com a própria receita. Não por falta de ambição, mas porque perceberam que há mais do que uma forma de construir uma empresa. Querem crescer ao ritmo que o negócio permite, reinvestir os lucros, pôr os clientes em primeiro lugar e, sobretudo, manter o controlo. É uma escolha menos vistosa, quase nunca celebrada nos palcos, mas viável e com benefícios reais a longo prazo.
O curioso é que, durante muito tempo, esta era a escolha normal. Construía-se uma empresa com uma ideia, algum dinheiro para arrancar, clientes, vendas, recrutamento e crescimento. O capital externo podia surgir mais tarde, se fizesse sentido. Não era um ritual de passagem obrigatório, nem uma prova de que o negócio era sério.
A dada altura, o boom das startups alterou essa perceção. A narrativa dominante passou a ser outra: levantar capital, crescer depressa,........
