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Sonhar o ex-futuro

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19.04.2026

Visitei pela primeira vez a Almedina da Fontes Pereira de Melo. Só há pouco me apercebi que tinha aberto. A do Atrium Saldanha é paragem sempre que ando por aqueles lados mas esta nova Lisboa que cresce sobretudo à custa de estrangeiros endinheirados terá eventualmente contribuído para outra Almedina se instalar no prédio novo que agora dá nas vistas ao lado do Sheraton.

“Fontes Pereira de Melo 41”, foi minimalmente baptizado o edifício. A parte de trás, que dá para a Maternidade Alfredo da Costa, ganhou um café com ar de ripar camones e um pequeno espaço ajardinado que nos orienta o olhar para a escultura da mãe com o seu filho. Fui surpreendido por essa oportunidade algo contemplativa, ali permitida por uma vizinhança tida por capitalista. São as suaves ironias urbanas.

Cheia de luz e de espaço, vagueei pela livraria. Gosto de vaguear por livrarias porque são mais as vezes que entro nelas sem uma missão específica do que as vezes em que tenho uma. Neste caso, estava em onda Karl Kraus mas acabei espanholado: ao cruzar-me com “Portugal, povo de suicidas” do Miguel de Unamuno, não pestanejei. É um volume breve, que colecciona textos quase todos vindos de “Por Tierras de Portugal y de España”, um livro difícil de conseguir.

Para mim não há como um livro atrevido de cem páginas. Vivo para livros atrevidos de cem páginas. Uma ideia forte, um encadeamento sugestivo, umas quantas frases inesquecíveis e, quando o leitor dá por si, acabou-se tudo. Ir além do livro sugestivo de cem páginas obriga ao autor muita seriedade e ao leitor muita paciência. E eu não combino com muita seriedade e ainda menos com muita paciência. É uma questão de combinação e de crença: quando um livro precisa de muitas páginas e paciência, descreio de tudo.

Miguel de Unamuno declara certeiro que “Portugal é um povo triste, (…) povo de suicidas. A vida não tem para ele sentido transcendente. Desejam talvez viver, sim, mas para quê? Mais vale não viver.” E senti-me vingado por cada vez que falando com brasileiros explico repetidamente que, se o brasileiro vive para viver, o português vive para morrer. Unamuno entendia isto muito bem. Claro, o seu “Do Sentimento Trágico da Vida”, volume com mais de 100 páginas, é obrigatório para se ir mais fundo nesta vida anti-vida que nos calhou em sorte, enquanto povo.

Deixo outra citação, talvez um dos mais brilhantes resumos feitos acerca de nós, portugueses. E merecemos que tenha vindo da pena de um espanhol. Foi em Portugal que Unamuno veio “sonhar o ex-futuro, o que podia ter sido e não foi”. É isto mesmo. Nós, portugueses, não temos futuro porque esta terra faz-nos sonhar preferencialmente com o ex-futuro, um porvir que não se concretizou. Acredito, no entanto, que possa haver vantagens nisto, como uma dia lembrou um poeta esquecido: “se o futuro não dá, então nunca desilude”.

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