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Terapias de conversão. Estou farta de ser insultada

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14.04.2026

Estou farta de ser insultada. Farta de ver quem ousa questionar determinados dogmas ideológicos ser imediatamente tratado como burro, obscurantista, ignorante ou moralmente suspeito. Farta de assistir à transformação do debate público num exercício de linchamento moral em que já não se responde a argumentos — calunia-se quem os faz.

Os episódios mais recentes em volta de uma Petição que assinei, são particularmente reveladores. O jornal Público afirmou que a dita Petição pretendia “o regresso da legalização das ‘terapias de conversão’, que têm o objetivo de converter um homossexual em heterossexual”. Uma mentira que tem sido repetida constantemente em vários outros órgãos de comunicação e redes sociais. E entretanto, Francisco Goiana da Silva, para além de dizer na SIC que os signatários de tal Petição “são uma cambada de ignorantes e deviam reduzir-se à sua ignorância”, tem vindo a explicar no mesmo canal que essas práticas envolvem crianças levadas pelos pais, às quais são impostos choques elétricos(!). Daqui se infere que os signatários da Petição que pede a revogação da Lei n.º 15/2024, pretendem permitir que se deem choques elétricos a crianças, uma insinuação abjeta, insultuosa, gravemente atentatória do meu bom nome e do de milhares de signatários da petição, e tão grosseiramente falsa que bastaria a qualquer jornalista minimamente competente — ou simplesmente intelectualmente honesto — ler o texto da petição ou pedir provas a quem nos acusa de tal coisa, para a desmontar em segundos.

Mas esta mentira é útil. Porquê? Porque permite evitar discutir o que verdadeiramente está em causa.

Permite esconder, por exemplo, que em Portugal há crianças a ser diagnosticados em 15 minutos como sendo do sexo oposto e imediatamente encaminhadas para bloqueadores da puberdade. (Só como termo de comparação, o diagnóstico de dislexia é, em média, feito em 3 ou 4 sessões, ao longo de um mês).

Permite esconder que aquilo que andam a vender como ciência indiscutível, está em plena discussão nos verdadeiros meios científicos (que certamente não é o destes comentadores televisivos, na maioria das vezes apresentados como “especialistas” de tudo, sendo ignorantes de quase tudo).

Permite esconder que o termo “terapias de conversão” – expressão que naturalmente gera repulsa, e bem, porque no passado existiram práticas verdadeiramente bárbaras – está hoje a ser usado de forma tão abrangente que pode incluir qualquer abordagem psicológica prudente que não valide automaticamente a autoperceção do paciente.

Permite esconder que a Petição agora tão atacada pede simplesmente a remoção da ideologia de género das comunicações e leis do Estado e a revogação de uma lei que está cheia dela –  lei essa juridicamente tão duvidosa que está até em fiscalização sucessiva da constitucionalidade.

Mas falemos então de cada um destes temas proibidos:

Durante anos venderam-nos a ideia de que as chamadas práticas de “afirmação de género” representavam um consenso científico consolidado, que questioná-las era negar a evidência, que qualquer reserva só podia nascer de preconceito ou ignorância. Pois bem: os próprios profissionais do setor são os primeiros a desmontar essa narrativa.

Os chamados WPATH Files — comunicações internas de especialistas ligados à World Professional Association for Transgender Health, organização cujos protocolos servem de base, direta ou indireta, a muitas das orientações clínicas usadas e citadas em Portugal — são profundamente reveladores.

Neles, profissionais envolvidos na elaboração destas diretrizes admitem, por exemplo, que muitos menores “estão fora do alcance do desenvolvimento necessário para compreender até que ponto estas intervenções médicas os afetam” (p. 11), reconhecem que falar de preservação da fertilidade com um adolescente de 14 anos é muitas vezes “como falar para uma parede” (p. 12), e chegam ao ponto de afirmar que o processo atualmente seguido “não é aquilo que, do ponto de vista ético, deveríamos estar a fazer” (p. 11). A própria presidente da WPATH, Marci Bowers, admite nos mesmos documentos que “a questão da fertilidade não tem investigação” (p. 18).

Isto é devastador. Ou deveria ser. Estamos a falar de intervenções com impacto permanente sem que exista verdadeira compreensão dos riscos e sem conhecimento sólido das consequências futuras.

Mas há mais. O manual de diretrizes da WPATH (SOC 8) inclui capítulos sobre eunucos como identidade de género válida, elegível para castração hormonal e cirúrgica, bem como referência a vaginoplastias com preservação do pénis para pacientes que desejam ambos os conjuntos de genitais, práticas que, há poucos anos, seriam consideradas impensáveis, e que, provavelmente, 99,9% dos leitores continuam a considerar como tal.

Perante isto, é legítimo perguntar: estamos perante medicina, ou perante uma experimentação social e corporal sem precedentes, à custa, na maioria das vezes, de jovens e adultos fragilizados?

Enquanto por cá se repete que isto é o que a Ciência diz e que quem a questiona não passa de um troglodita, vários países que há mais tempo vinham implementando práticas de afirmação de género, começaram precisamente a recuar, travar e corrigir.

O Reino Unido reviu radicalmente o seu sistema após o Relatório Cass – a mais abrangente revisão independente de sempre nesta área, publicada em 2024 – concluir que a evidência é fraca, recomendando prudência e foco em acompanhamento psicológico. Na Suécia e Finlândia, bem como em posicionamentos institucionais relevantes em França, observa-se uma clara orientação para maior prudência clínica, avaliação multidisciplinar e contenção da medicalização precoce, sobretudo em menores.

Os melhores e mais recentes estudos – olimpicamente ignorados por estes senhores que enchem a boca com a palavra Ciência, mas não devem ter tempo para a estudar – apontam na mesma direção.

Um estudo alemão publicado em 2024, baseado em cerca de 14 milhões de registos populacionais anuais ao longo de dez ano, revelou um crescimento explosivo dos diagnósticos de disforia de género, uma persistência diagnóstica de apenas cerca de 36,4% ao fim de cinco anos, e comorbilidades psiquiátricas em 72,4% dos jovens diagnosticados. A conclusão dos autores foi, mais uma vez, prudência.

A American Society of Plastic Surgeons (ASPS) publicou em 2026 uma nova posição oficial recomendando que cirurgias de transição de género sejam, em regra, adiadas até pelo menos aos 19 anos. A organização afirma existir evidência insuficiente para demonstrar um balanço risco-benefício favorável dessas intervenções irreversíveis em menores, sublinhando ainda a necessidade de especial prudência ética e clínica perante a limitação dos dados de longo prazo e a complexidade do consentimento informado em adolescentes.

Mas quanto à forma como a palavra Ciência é usada em Portugal, talvez ainda mais revelador seja o que se passa dentro de portas.

Num documento de trabalho datado de 18 de março de 2026, Ricardo Gusmão — médico-psiquiatra, Professor Associado Convidado da FMUP e investigador principal do ISPUP — analisou o rigor científico dos pareceres entregues no Parlamento sobre este assunto, emitidos pela Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, por um grupo de cerca de 210 profissionais de saúde e pela Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Aplicando a 90 referências científicas o sistema GRADE – o principal método internacional usado para medir quão robusta e fiável é a evidência científica por detrás de recomendações médicas – a conclusão é esmagadora: a enorme maioria da evidência invocada nesses pareceres era de baixa ou muito baixa qualidade. No total, apenas 7 referências atingem o mínimo de relevância clínica (Baixa a Moderada ou Moderada).

Ou seja: o próprio edifício argumentativo apresentado como “científico” assenta, em larga medida, em evidência de fraca qualidade.

Se há algo que este conjunto de dados — internacionais e nacionais — mostra com clareza é isto: não existe o consenso científico que nos querem vender, existe evidência frágil, reconhecida pelos próprios especialistas. E essa fragilidade está a ser ocultada no debate público.

E uma das cortinas de fumo utilizada nessa ocultação, é o impedir a discussão do que interessa, lançando para a ribalta polémicas sobre temas que o não são. Bom exemplo disso, é o verdadeiro desvario que se gerou na comunicação social em volta da Petição que já referi e que – alegadamente – pediria a legalização das “terapias de conversão”. Tal Petição gerou indignação apoplética, levando até à criação de uma “contra petição” e à transmissão de insinuações e falsidades tão descabeladas como as que citei no início.

A verdade, é que nada na petição defende, sugere ou tolera práticas violentas, abusivas ou atentatórias da dignidade humana. Pelo contrário: pede a revogação de uma lei cuja eliminação não implicaria, em caso algum, a legalização de práticas abusivas, uma vez que tais condutas já se encontram abrangidas pela legislação penal geral. Para que fique claro: qualquer pessoa que dê choques elétricos seja a quem for, por qualquer razão que seja, já é punida por lei — como é óbvio.

No entanto, a Lei n.º 15/2024 foi redigida de forma tão ampla que pode abranger não apenas práticas abusivas, mas também formas legítimas de aconselhamento, orientação e acompanhamento clínico, psicológico ou familiar que não sejam imediatamente afirmativas.

Isto significa que um profissional que procure explorar com prudência as causas do sofrimento de um jovem, pode ser acusado de uma prática que nada tem a ver com esses abusos do passado. O resultado é uma limitação preocupante da liberdade clínica e do acompanhamento psicológico sério, precisamente quando ele é mais necessário.

Ninguém nega que existam pessoas em sofrimento e ninguém defende que devam ser ignoradas. Pelo contrário, o que eu e muitos outros exigimos é que em Portugal quem se debate com este sofrimento receba, de facto, os melhores cuidados.

E o que eu e muitos outros recusamos é que se revista de “ciência irrefutável” aquilo que continua profundamente incerto, que se escondam essas incertezas do público, e que se insulte moralmente qualquer pessoa que tenha a honestidade de o dizer.

Podemos discutir soluções e podemos discordar sobre caminhos, mas quando alguém usa a palavra “ciência” como arma de arremesso para impor uma visão, ignorando aquilo que a própria Ciência hoje revela, está apenas a fazer ideologia e a dar provas de desonestidade intelectual.

Porque a ciência verdadeira não tem medo de dúvidas, não precisa de silenciar perguntas e, sobretudo, não se protege com insultos ou censura moral.

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