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Gronelândia: ausência da UE abre a porta ao facto consumado

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07.01.2026

No mesmo dia em que o presidente venezuelano Nicolas Maduro era capturado e transportado até Nova Iorque, Katie Miller antiga “conselheira” do DOGE (Department of Government Efficiency) de Musk e esposa de Stephen Millers considerado por muitos como o mais influente conselheiro (e ideólogo) de Trump publicava no X um post com o mapa da Gronelândia com a bandeira dos EUA.

Horas depois, numa intervenção telefónica em direto na Fox, o presidente dos EUA declarava que “temos que fazer alguma coisa sobre os cartéis no México” dando a entender operações de extração semelhantes no México o que aliás ficou também no ar nas suas declarações no dia da operação quando saiu do “script” (algo comum em Trump) e disse “temos de fazer isto, outra vez, noutros países. Ninguém nos consegue parar”.

A publicação de Katie Miller e as múltiplas declarações de Trump exprimindo o interesse na ocupação da Gronelândia, o empoderamento actual e a existência – cada vez mais flagrante – de “Novas Tordesilhas” que deixam aos EUA as Américas (incluindo a Groenlândia), a Europa e a África do Norte à Rússia e o resto do planeta à China, indicam que Trump não se vai ficar por uma operação cirúrgica na Venezuela e vai aprofundar a sua “posse” da parte do mundo pisando, de passagem, o Direito Internacional, a União Europeia e a própria NATO realizar uma ocupação militar do território autónomo, sob soberania dinamarquesa, da Groenlândia.

Na minha opinião o controlo militar da Gronelândia pelos Estados Unidos não colocaria, em termos estritamente militares e operacionais, um problema sério de resistência armada convencional. A Gronelândia, oficialmente Kalaallit Nunaat (nome em língua gronelandesa, que significa “Terra dos Gronelandeses”), é um território gigantesco em área, com cerca de 2,16 milhões de Km2, cerca de 80% dos quais cobertos por gelo, o que reduz drasticamente a área habitável e defensável. A população é muito reduzida, em torno de 56.000 habitantes, concentrados em algumas localidades costeiras ao longo da costa (como Nuuk, capital, Sisimiut, Ilulissat, Qaqortoq, Aasiaat), sem ligações ferroviárias ou rodoviárias entre si e totalmente dependentes do transporte aéreo e marítimo.

Não existe uma profundidade estratégica defensiva relevante em termos convencionais: não há forças armadas locais, não há indústria de defesa, não existem sistemas de defesa aérea ou forças terrestres mecanizadas, e a população não está militarizada nem organizada para resistência armada nem motivada ou preparada para acções de guerrilha em caso de ocupação militar. Em termos de soberania formal, a Gronelândia é um território autónomo dentro do Reino da Dinamarca, com amplas competências internas e possibilidade de autodeterminação, mas sem capacidade própria de defesa militar credível contra uma grande potência como os EUA.

Os EUA já dispõem de presença militar permanente e estrategicamente decisiva através da base hoje designada Pituffik Space Base. Essa base assegura funções de alerta precoce de mísseis balísticos, vigilância espacial e apoio a operações no Ártico, com pista capaz de receber grandes aeronaves de transporte. Isto significa que o essencial do controlo estratégico, da vigilância........

© Observador