A raspadinha que o Estado que prefere não ver
Em 2025, os portugueses gastaram quase dois milhões de euros em raspadinhas. Ou seja, cinco milhões/dia o que significa 60% de tudo o que os Jogos Santa Casa da SCML venderam neste ano. Com efeito, a lotaria instantânea continua a crescer e é, de longe, atualmente, o jogo mais popular do país. Portugal é, há anos, o país europeu onde mais se gasta per capita neste jogo, muito acima da vizinha Espanha, onde o hábito nunca ganhou esta dimensão assustadora.
Estes números dizem quanto se gasta, mas não dizem quem paga… Essa pergunta foi feita, literalmente, no estudo “Quem paga a raspadinha?”, conduzido pela Universidade do Minho para o Conselho Económico e Social e apresentado em 2023. Como seria de esperar: a resposta é desconfortável e devia incomodar a SCML e a classe política: Quem vive com um rendimento entre 400 e 664 euros por mês joga 3,1 vezes mais do que quem ganha acima de 1500. Os investigadores estimaram em cerca de 100 mil o número de pessoas com problemas de jogo associados à raspadinha, 30 mil das quais com um tipo de perturbação tão grave que corresponde, na prática, a uma patologia que, quase sempre, não está nem tratada nem diagnosticada. Entre este grupo de cidadãos viciados em raspadinhas contabilizaram-se, sobretudo, os mais velhos, os menos escolarizados e as pessoas com pior saúde mental do que o resto da população.
Quem conhece um café de bairro ou uma tabacaria sabe bem do que estou a escrever. O bilhete de cinco euros dá dois prémios, trocados de imediato por outro bilhete. O prémio de dez que regressa inteiro à caixa........
