IA, trabalho intelectual e os limites do corpo humano
Nas minhas últimas crónicas procurei explorar os riscos associados à difusão acelerada da inteligência artificial generativa. Comecei pela erosão da escrita enquanto exercício de pensamento, num espaço público cada vez mais saturado por textos plausíveis, frequentemente vazios de intenção e de compromisso com a verdade. Depois, escrevi sobre a deslocação da autoria para uma nova figura – o “meta-autor” –, aquele que já não escreve necessariamente cada frase, mas que acaba por responder pela coerência, pela intenção e pelo sentido do que é produzido. Em ambos os casos, preocupa-me uma questão que considero central: como podemos preservar a responsabilidade intelectual e o valor da singularidade da escrita num mundo em que produzir linguagem se está a tornar – aparentemente – fácil?
Hoje, foco-me num terceiro problema, que, a meu ver, é o mais preocupante: a tecnologia está a evoluir muito mais depressa do que o corpo humano consegue acomodar. Nas últimas décadas, habituámo-nos a discutir o impacto das tecnologias digitais em termos de eficiência, produtividade e inovação. Mas só recentemente começámos a interrogar-nos sobre até que ponto o corpo humano – e, em particular, o cérebro – consegue absorver o ritmo dessa transformação.
Um artigo recente publicado na Harvard Business Review, denominado, “When Using AI Leads to “Brain Fry” (a que cheguei a partir do podcast HardFork, do New York Times, conduzido por Kevin Roose e Casey Newton), ajuda a iluminar este problema. Num estudo com trabalhadores de grandes empresas, os........
