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Carta aberta a Pedro Passos Coelho

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09.03.2026

Estimado Pedro Passos Coelho,

A política, como a natureza, raramente tolera o vazio. Onde ele surge, cedo ou tarde alguém o ocupa e a história ensina-nos que, nesses momentos de transição, nem sempre são as forças mais prudentes ou mais responsáveis que primeiro avançam.

É precisamente um desses momentos que a direita portuguesa atravessa.

Nos últimos anos, o espaço político à direita tem vivido entre a fragmentação estratégica e a hesitação tática. Falta-lhe uma referência agregadora, uma liderança que seja simultaneamente reconhecida pelos seus pares e inteligível para o país. Quando tal não acontece, o espaço público não permanece neutro e quase sempre é preenchido por discursos mais simples, mais emotivos e frequentemente mais radicais.

Neste contexto, o seu nome regressa de forma recorrente ao debate político.

Não por nostalgia (sentimento pouco útil em política) nem por qualquer tentativa de revisitar o passado. Surge, antes, porque na atual conjuntura, continua a ser a única figura do PSD com autoridade política, experiência governativa e densidade intelectual suficientes para desempenhar um papel verdadeiramente agregador no espaço da direita democrática.

O seu percurso político constitui, nesse sentido, uma referência incontornável. Governou Portugal num dos períodos mais exigentes da nossa democracia recente, num contexto de profunda crise financeira e institucional. Fê-lo tomando decisões difíceis, muitas delas profundamente impopulares, mas sempre enquadradas por uma convicção que hoje parece escassa na política contemporânea, a de que governar implica, por vezes, escolher o necessário em detrimento do conveniente.

Num tempo em que a política se tornou frequentemente refém da performance mediática e da lógica do ciclo noticioso, essa disposição para assumir custos políticos em nome do interesse nacional adquiriu um valor quase contra-cultural.

Neste sentido, mais do que um antigo primeiro-ministro, o Pedro Passos Coelho representa hoje para muitos eleitores algo que se tornou raro na direita portuguesa e falo concretamente da coerência de pensamento, clareza de discurso e memória de governação.

A direita democrática enfrenta atualmente um duplo desafio. Por um lado, evitar que o Partido Socialista, provavelmente coadjuvado por Belém, se reorganize novamente e por outro, impedir que o descontentamento de uma parte significativa do eleitorado continue a ser canalizado para soluções de protesto, frequentemente mais eficazes a explorar frustrações do que a construir soluções governativas.

Entre esses dois riscos abre-se um espaço político que precisa de liderança, autoridade e direção estratégica.

A direita portuguesa necessita de alguém capaz de falar para dentro, unindo sensibilidades distintas e para fora, dialogando com um país que se tornou mais exigente, mais desconfiado e menos tolerante à ambiguidade política. Essa liderança não se improvisa nem se constrói artificialmente. Resulta de um percurso, de um reconhecimento público e de provas dadas em circunstâncias difíceis.

É por isso que lhe escrevo esta carta aberta.

Não por vaidade pessoal, nem por qualquer impulso de ajustar contas com o passado, mas por um sentido de responsabilidade perante o presente e o futuro. Há momentos na vida pública em que a disponibilidade para servir volta a ser necessária, mesmo quando a tranquilidade da vida privada se apresenta como a alternativa mais confortável.

Portugal precisa de uma direita democrática sólida, europeísta, responsável e preparada para governar e neste momento, não é evidente que exista no PSD alguém com a sua capacidade para unir esse espaço político e devolver-lhe a direção estratégica.

A política não gosta de vazios prolongados. Quando esses vazios persistem, acabam por ser ocupados por quem mobiliza mais ressentimento, não necessariamente por quem melhor serve o país.

Talvez tenha chegado o momento de voltar a entrar em cena.

Não por nostalgia do passado, mas por responsabilidade perante o futuro.

Com consideração e franqueza,

Ricardo Neves de Sousa

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