Santo Sudário - intersecção entre crença e ciência
“Santo Sudário” é a designação atribuída a uma relíquia católica constituída por um lençol de linho tecido em padrão de “espinha de peixe”, com cerca de 4,4 m de comprimento e 1,1 m de altura, exposto na Catedral de Turim, onde chegou em 1578, quando a cidade se tornou a capital do Ducado de Saboia.
Em 1694, é colocado em capela dedicada, dentro da Catedral, tendo sido deslocado apenas duas vezes: uma primeira para Génova aquando do cerco de Turim, em 1706 e para a Abadia de Montevergine, na Campânia durante a Segunda Guerra Mundial; desde 1946 encontra-se na Catedral de San Giovanni Battista, em Turim.
Atualmente o Sudário é mantido numa caixa estanque, cheia de um gás inerte, numa pequena sala, protegida, só podendo apreciar-se em períodos demarcados por decisão do Papa, visto o Sudário ter sido legado à Santa Sé por Umberto II de Saboia.
Alternativamente, pode ser visitado o Museu do Sudário, localizado na cripta da igreja, com documentação abundante.
A memória litúrgica do Santo Sudário é celebrada a 4 de maio, por decisão do Papa Júlio II (frade franciscano OFM, que exerceu o papado de 1503 a 1513) porque, no dia anterior, 3 de maio, se celebrava a descoberta da cruz sagrada por Santa Helena, mãe do imperador Constantino, visando evidenciar que depois da Cruz veio o Sudário.
Em negativo, é possível ver, gravada no pano, uma figura humana, que muitos acreditam tratar-se do próprio Jesus e que, portanto, este teria sido o tecido que os seus seguidores utilizaram para envolvê-Lo após a morte, por crucificação; junto ao Sudário, um aviso de que a história “não pode ser considerada definitivamente comprovada”. A ciência não confirma a autenticidade deste símbolo, mas também não a nega nem desmente a saga do sofrimento descrita nos dogmas cristãos. Na perspetiva da fé cristã, o Sudário é um símbolo que convida o fiel a admirar as marcas da paixão de Cristo, pelo que é venerado e preservado como uma relíquia preciosa.
A análise da impressão do Sudário de Turim permite reconhecer vestígios de diferentes tipos de lesões corporais, muitas dos quais foram identificadas com manchas de sangue, algumas delas no rosto, outras na cabeça e nos pulsos, e uma grande mancha de sangue no lado direito do tórax. É também visível um conjunto de marcas, espalhadas por todo o corpo, dos ombros às extremidades inferiores das pernas, que são interpretadas como sinais resultantes de uma terrível flagelação, que foi infligida ao Homem do Sudário, antes da crucifixão. Aponte-se que, no decorrer dos séculos, e com maior frequência na atualidade, existiram muitas tentativas de questionar a autenticidade do Sudário, apresentando os seus resultados, muitas vezes bem duvidosos, em grandes parangonas, evidenciando a necessidade de um debate sereno e construtivo, a confirmar o que afirmava S. João Paulo II: O Sudário é uma constante provocação para a ciência e a inteligência.
Apesar de venerado pelos católicos, a autenticidade do tecido não tem consenso na comunidade científica, mas, para Cesare Nosiglia, arcebispo de Turim (de outubro de 2010 a fevereiro de 2022) : “O mais importante para os peregrinos e para a Igreja é que, ao estarem perante o Santo Sudário, as pessoas sintam no coração o que Jesus fez”.
José de Arimatéia…foi procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo… Recebendo o corpo, José envolveu-O num lençol ainda não usado. [Mt 27:57-61].
Não havia tempo a perder. Poucas horas restavam para findar o dia. O sábado, dia solene e, nesta data soleníssimo, ia começar. Era necessário retirar Jesus do patíbulo infamante e proceder à inumação. Jesus é envolvido num longo lençol de linho e depositado num sepulcro novo, talhado na rocha sem que os ritos judaicos de sepultamento fossem integralmente cumpridos. Madalena e Maria, observaram com cuidado o lugar onde Jesus fora depositado e, no domingo, primeiro dia da semana, muito cedo, vieram ao sepulcro com unguentos, bálsamos e perfumes para ungirem o corpo de Jesus, mas encontraram o túmulo vazio, no chão a mortalha e ligaduras e, num lugar à parte, o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus.
Que fizeram os discípulos a estes panos funerários? Os Evangelhos não o dizem, mas é de crer que os guardassem com o maior cuidado e segredo. Passados séculos, quando a Igreja deixa a vida obscura, todas as relíquias da Paixão são recolhidas com carinho e a mortalha do Senhor não podia fazer exceção.
Esta mortalha, após vicissitudes diversas foi qualificada como sendo falso pelo bispo de Troyes, Pierre d’Arcis, que proibiu a sua exibição; em 1506, o Papa Júlio II aprova a Liturgia do Sudário. Em 1532, na noite entre 3 e 4 de dezembro ocorre um incêndio em Chambéry e a urna do Sudário tem um lado atingido pelo fogo e algumas gotas de metal fundido atravessam as várias camadas dobradas. No entanto este não terá sido o primeiro incêndio a atingi-lo pois que a pintura do Código Pray, de Budapeste, em 1192, já apresentava marcas de um incêndio anterior.
Em 1578, Emanuel Filiberto transfere o Sudário para Turim, a fim de abreviar a viagem de São Carlos Borromeu, que queria venerá-lo para cumprir o voto feito para libertar Milão da peste. Exposições públicas na Casa dos Saboia ou nos jubileus começam a acontecer a cada trinta anos, aproximadamente. Em 1694 o Sudário passa para a Catedral de Turim. Em 1898 a primeira fotografia realizada pelo advogado Secondo Pia permite evidenciar que o negativo da fotografia mostrou ser a fotografia do homem representado.
A partir daqui a história passa a ser basicamente de estudos científicos pois, em verdade, o Sudário torna-se um facto científico, uma realidade de ordem material, que passa a ser estudada com meticuloso cuidado e paixão.
A fotografia, a arqueologia, a antropologia, a anatomia, a fisiologia, a patologia, a história, a exegese, a arte, debruçam-se sobre o Sudário, e são hoje muitos os trabalhos existentes, nas mais variadas línguas e sobre os mais variados aspetos. A Igreja Católica deixa plena liberdade à crítica e nada definiu. É um assunto de livre discussão, não endossando nem rejeitando formalmente o Sudário e, em 2013, o Papa Francisco referiu-se a ele como um “ícone de um homem flagelado e crucificado”.
O lençol apresenta uma imagem dupla, frontal e dorsal, de um homem nu, em tamanho natural. Alguns pesquisadores americanos calcularam que o Homem do Sudário tinha aproximadamente 1,80 m de altura, sendo alguém habituado ao trabalho manual, Dale Stewart, pesquisador do Museu Smithsonian de História Natural dos Estados Unidos, disse que a barba, o cabelo e os traços faciais são característicos do grupo racial semita.
O historiador inglês Ian Wilson foi o primeiro a observar o formato da longa mecha de cabelo que cai sobre o meio das costas do homem do Sudário e que se assemelha a uma trança desmanchada; trançar os cabelos atrás do pescoço era uma moda comum entre os homens judeus no tempo de Jesus. No Lençol Mortuário, as numerosas marcas de ferimentos que aparecem, revelam que o homem foi brutalmente açoitado, coroado com espinhos, crucificado e perfurado por uma lança no lado direito do tórax. Pierre Barbet, cirurgião francês do hospital Saint Joseph de Paris, assim como outros especialistas em anatomia e medicina legal, estudaram exaustivamente essas marcas e concluíram que elas correspondem às narrativas sobre a flagelação e morte de Jesus, conforme estão descritas nos Evangelhos. E que também acrescentam informações desconhecidas pela tradição cristã, que são confirmadas pela pesquisa histórica e arqueológica recente como, por exemplo, o fato do crucificado ter sido pregado à barra horizontal da cruz pelos pulsos e não pelo meio das mãos, conforme era imaginado.
Em 1973, o Vaticano permitiu que fosse extraída uma pequena amostra do Sudário para pesquisa e avaliação. O estudo microscópico confirmou que o pano era de linho, tecido em padrão “espinha de peixe”, com traços de algodão.
Nesta mesma época, o Dr. Max Frei-Sulzer, médico suíço, especialista em criminologia e botânica e talvez, à época, a maior autoridade mundial na identificação de pólenes, fez uma notável descoberta. Afirmou que toda a flor produz um pólen que é diferente dos pólenes das demais e que o pólen, segundo o cientista, tem uma parede protetora que faz com que ele se mantenha inalterado por milhares de anos. Autorizado pela Igreja, estudou os pólenes que se encontram no Sudário e, após quatro anos de pesquisa, identificou 48 tipos diferentes de pólenes e que a Mortalha tinha estado na Turquia e em outros países da Europa (Alemanha, França e Itália) e, por isso, decidiu viajar a Jerusalém, para conhecer a flora e vegetação de Israel. Pesquisando as plantas daquela região, descobriu oito tipos diferentes, cujos pólenes se encontram no Sudário. Isto indica, segundo a conclusão do especialista, que o Santo Sudário esteve nestes lugares, em qualquer época da sua existência, ou então um falsário terá levado o tecido para a região de Jerusalém para captar o pólen; claro que há o argumento de que o pólen viaja pelo ar. Novamente poder-se-á pensar: quanta “dedicação” do pólen de múltiplas espécies para viajar centenas de quilómetros para repousar no Sudário!
Em 1981, o Padre Francis Fila, professor na Universidade de Loyola em Chicago nos USA, ao analisar a figura tridimensional do Sudário, notou um “inchaço circular” nas regiões oculares, tendo-se percebido que se tratava de “uma moeda” sobre a pálpebra do olho direito, o que correspondia a um costume judaico do século I: enterrar com moedas sobre os olhos. Ainda verificou que a moeda tinha o nome de Tibério César, escrito em grego, igual às moedas que circulavam em Jerusalém no tempo de Pôncio Pilatos.
O Vaticano concordou, em 1988, com a aplicação ao Sudário do método de datação por carbono 14 e o Cardeal Ballestrero indicou três laboratórios para datação: Universidade de Oxford, Universidade de Zurique e Universidade do Arizona. O processo deu origem a muita curiosidade, pois seria a primeira vez que uma análise objetiva desta natureza seria feita. O resultado foi um “banho de água fria” em boa parte dos estudiosos favoráveis à teoria autenticidade, pois mostrou que o Santo Sudário datava da Idade Média (1260 – 1390).
Porém, os estudiosos “favoráveis” ao Santo Sudário recusaram-se a aceitar passivamente uma informação que ia contra outras tantas que tornavam “completamente inverosímil” a possibilidade de fraude. Mas na ciência, apenas recusar não é argumento. E foi exatamente isso que esse grupo de pesquisadores questionou: a datação de carbono-14 teria seguido tudo, menos o método científico. Assim, apontaram que o Santo Sudário foi recortado nas extremidades, com pedaços bem pequenos. Ora atendendo a que o tecido foi restaurado pelo menos quatro vezes e, embora não tenham sido retiradas amostras das regiões sabidamente restauradas, é perfeitamente admissível que tenham ocorrido outras restaurações ao longo dos séculos, principalmente nas suas extremidades, pelo que seriam necessárias mais amostras de outros locais; sublinharam ainda que o número de laboratórios fora reduzido, o que aumenta a possibilidade de viés e foi também apontado que a amostra de controlo, que se considera ser sempre necessária, era de tecido significativamente diferente do pedaço do que constitui o Sudário.
Tudo isto, para qualquer estudioso, invalida os resultados, gerando necessidade de repetição sob condições ideais, o que não é fácil, pois envolve retalhar uma relíquia preciosíssima, sendo, entretanto, apontadas causas possíveis de distorção de resultados Assim, O Dr. Leôncio Garza Valdes, médico e professor da Universidade do Texas, pesquisou e descobriu resíduos orgânicos gerados por bactérias em múmias. Ao tentar datá-las pelo processo de radiocarbono descobriu que esses resíduos, que formavam um revestimento bioplástico sobre os fios do tecido, alteravam o resultado da datação, devido à impossibilidade de limpá-los de modo adequado.
A pátina causada pelos fungos é um acréscimo natural nas superfícies antigas estáveis. São necessárias centenas de anos para que os fungos criem um ‘verniz’ contínuo. As fibras do Sudário de Turim têm um depósito espesso devido às bactérias. A datação obtida mediante o C14 em 1988 dever-se-ia na realidade, a uma mistura do C14 do tecido do Sudário com o C14 da pátina de bactérias.
3 À guisa de conclusão
A verdade é que, até hoje, o que seria a relíquia católica mais preciosa segue envolta em mistérios que intrigam todos que se aventuram a conhecê-la. Para uns, é o lençol que envolveu o corpo de Jesus Cristo após sua crucifixão; para outros, não passa de uma fraude bem construída e assim o pano continua atraindo a atenção de muita gente, crentes e não-crentes.
A história da ciência foi muitas vezes olhada como um conjunto de conflitos entre a ciência e a religião, mormente a religião cristã, das quais o caso de Galileu era um dos apresentados como paradigmáticos, todavia, procurando situar esta relação no seu contexto social e histórico, foram facilmente explicadas ou percebidas algumas das controvérsias, digamos paradigmáticas, que envolvem religião e ciência. Assim, a imagem tradicional de Galileu como mártir da liberdade intelectual e vítima da oposição da Igreja Católica à ciência pode assumir um tom quase caricatural, na medida em que ela se encontra no alvorecer de novo paradigma de leitura da Sagrada Escritura: passagem da leitura historicista à leitura semântica.. Na verdade, ciência e religião lidam com domínios diferentes da experiência humana. A ciência investiga o mundo natural, enquanto a religião lida com o espiritual , pelo que poderão ser complementares, embora seja verdade que, ao estarem em causa questões na sua interface, por vezes surjam divergências.
A este propósito considera-se de interesse transcrever parte do discurso de S. João Paulo II na Universidade de Cracóvia, por ocasião dos 600 anos da Alma Mater Jaghelónica (8 de Junho de 1997), [ L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 21 de Junho de 1997)]:
Não posso, enfim, deixar de dirigir uma palavra também aos cientistas, que nos proporcionam, com as suas pesquisas, um conhecimento sempre maior do universo inteiro e da variedade extraordinariamente rica dos seus componentes, animados e inanimados, com suas complexas estruturas de átomos e moléculas. O caminho por eles realizado atingiu, especialmente neste século, metas que não cessam de nos maravilhar. Ao exprimir a minha admiração e o meu encorajamento a estes valorosos pioneiros da pesquisa científica, a quem a humanidade muito deve do seu progresso atual, sinto o dever de exortá-los a prosseguir nos seus esforços, permanecendo sempre naquele horizonte sapiencial onde aos resultados científicos e tecnológicos se unem os valores filosóficos e éticos, que são manifestação característica e imprescindível da pessoa humana. O cientista está bem cônscio de que “a busca da verdade”, mesmo quando se refere a uma realidade limitada do mundo ou do homem, jamais termina; remete sempre para alguma coisa que está acima do objeto imediato dos estudos, para questões que abrem o acesso ao Mistério.
No que se refere ao Sudário, o que está em causa é a disputa entre a razão (ciência) e a crença. Do ponto de vista da ciência, todas as conclusões apresentadas sobre o Santo Sudário podem ser revistas, dada a provisoriedade das teorias científicas que permanecem verdadeiras até o momento em que são contestadas por outras pesquisas e análises (Popper, 1984). As formulações teóricas são mutáveis e é aparente que a sua alteração arrasta a dos conceitos, mesmo daqueles que se afigura estarem mais próximos da perceção sensorial direta. Esta formulação representa sempre o produto final de um processo inventivo complexo em que diversos componentes vão confrontar-se, de modo que se podem modificar conceitos básicos, ou seja a própria ideia de natureza com os paradigmas vigentes.
Na exposição relativa ao Santo Sudário, o que se pode averiguar é a complexidade do objeto de estudo e o questionamento da ciência sobre a autenticidade das marcas do passado, confrontando-se com a posição de crença no facto de tratar-se do lençol que, de acordo com a referência bíblica, terá envolvido o corpo de Jesus após a Sua morte na cruz.
Crer opõe-se a saber, embora faça parte do quotidiano das nossas vidas e não podemos libertar-nos disso, não sendo, portanto, uma atitude exclusivamente religiosa, mas uma realidade humana geral. Um objeto da crença é da ordem da “íntima convicção” como para os jurados do tribunal, devendo apontar-se que
toda a nossa ideologia contemporânea tem confiança no saber e fica reservada no domínio da crença, a qual é da ordem da convicção pessoal, isto é, do que não se discute e que também não se pode partilhar.
A crença provê respostas às nossas perguntas, a fé nunca o faz. O ato de fé, que constitui uma disposição interior de inteligência, de liberdade, ultrapassa aquilo que pode levar a crer, pelo que se toma como sinal de viver na amizade divina. Assim, a fé cristã distingue-se da simples crença, em primeiro lugar porque a fé não é apenas um modo de conhecer consistindo também, e sobretudo, num ato da pessoa inteira sendo portanto mais do que compreender ou estar convicto aparece como um ato existencial e, em segundo lugar, convém dizer que a convicção própria da crença assenta num testemunho que é não só puramente humano mas também extrínseco a quem o recebe e a fé cristã, por seu turno, funda-se num “toque de Deus” que atinge diretamente o ser humano. Assim, se for “provado” que o Sudário é “falso”, isso em nada muda nossa realidade. Toda a base da nossa fé está na Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor, atestada nas Sagradas Escrituras e na tradição apostólica desde sempre.
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