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O Reino de Deus no limiar de um novo quartel do século

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06.01.2026

A mudança de um ano pode ser apenas isso: um dado do calendário, de interesse para astrónomos, agricultores ou estatísticos. A passagem para um novo quartel de século — mais uma divisão criada pelo ser humano — não altera, por si só, a realidade. E, no entanto, num tempo marcado por ameaças e promessas inquietantes, talvez esta fronteira simbólica nos conceda uma oportunidade rara: parar, escutar e pensar no Reino de Deus, que Jesus anunciou como Reino do Homem plenamente reconciliado consigo, com os outros, com a Criação e com Deus.

Com a esperança renovada pelo Natal que há pouco celebrámos, entramos em 2026 conscientes de que, neste segundo quartel do século, o direito da força parece, cada vez mais, querer substituir a força do direito. A história recente mostra-nos um mundo onde o poder económico, tecnológico e militar se sobrepõe à dignidade humana, reduzindo o homem a instrumento — quando não a mercadoria. A transformação do ser humano em “mercadoria pouco valiosa” no contexto das migrações contemporâneas é um dos dramas éticos e humanitários mais graves do ano que termina, fenómeno alimentado por redes de tráfico e políticas de exclusão que desumanizam o indivíduo, tratada como carga descartável.

Foi precisamente neste ponto que Jesus colocou o centro da sua missão. Ele anunciou o Reino de Deus não como privilégio dos justos instalados, mas como direito oferecido aos sem-direitos, aos excluídos e injustiçados. Fê-lo não apenas por palavras, mas pelo gesto escandaloso da comunhão: “Este homem recebe pecadores e come com eles” [Lc: 15,2], murmurava a sociedade farisaica. Ao sentar-se à mesa com os marginalizados, Jesus antecipava o banquete do Reino e exercia sobre eles o direito da graça, justificando-os pela compaixão — como Paulo mais tarde ousará formular teologicamente.

Assim, Jesus devolveu aos pobres a certeza da sua dignidade indestrutível aos olhos de Deus. O Reino entra no mundo dos humilhados e dos insultados e liberta-os da prisão interior do autodesprezo. A sua “constituição”, o Sermão da Montanha, culmina na proclamação inaudita: “Felizes os pobres, porque deles é o Reino”. Não apenas será — é.

Hoje, porém, vivemos num mundo onde a dignidade parece ser reconhecida apenas em função da capacidade de produzir, consumir e dominar. O nome de Deus é, não raras vezes, manipulado para justificar a riqueza de poucos e a pobreza de muitos. Assistimos ao declínio dos valores que moldavam a pessoa a partir de........

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