Um choque de cultura para Portugal
Costuma dizer-se que a cultura come a estratégia ao pequeno-almoço. Isto é um aviso sério.
Adoramos discutir se temos a melhor estratégia para os fundos europeus. Para os incentivos fiscais. Para o investimento público, imigração, educação, saúde ou até o novo aeroporto e a alta velocidade que ainda não fizemos. Podemos continuar a fazer tudo isso – mas vamos continuar a crescer pouco.
Porque o problema mais fundo não é de estratégia. É de cultura.
Os números são claros. Desde 2000, o PIB per capita portuguesa cresceu cerca de 26%. No mesmo período, o grupo de países comparáveis definido no Comparar para Crescer evoluiu praticamente 2,7 vezes mais do que nós. Se tivéssemos acompanhado esse ritmo, hoje o nosso PIB per capita estaria na ordem dos 32 mil euros. Estaríamos muito próximos da média europeia. Estaríamos noutro campeonato.
Temos a cultura certa para criar prosperidade?
Precisamos de um choque de cultura assente em três ideias simples, memoráveis, mas exigentes.
1. Portugal pode e deve ser muito melhor
Repetimos demasiadas vezes que somos “pequenos e periféricos”. Dizemo-lo quase com ternura. Como se fosse um traço identitário.
Mas as palavras moldam ambições. E ambições moldam resultados.
Enquanto o nosso objetivo coletivo for “convergir com a média da União Europeia”, estaremos a apontar para o meio da tabela. Nenhuma equipa de futebol grande começa uma época a dizer que quer ficar no 8º lugar. Nenhum líder ambicioso define como meta ser apenas razoável.
O benchmark importa. Se nos compararmos com a média, com sorte e algum engenho ficaremos na média. Se nos compararmos com os melhores, subimos a fasquia. Talvez não cheguemos ao topo absoluto – mas ficaremos muito acima do que estamos hoje.
Portugal não está condenado à mediania. Está condicionado pela ambição que escolhe ter.
E essa ambição pode – e deve – ser radicalmente maior. Queremos ser dos países mais desenvolvidos da Europa.
2. O futuro é o que fizermos dele
Há outra frase confortável: “é o que é”.
Somos pequenos. Somos periféricos. Não temos recursos naturais. Temos poucos jovens e vão-se embora. Bruxelas não deixa. Os fundos não chegam. O contexto internacional é difícil.
Quantas vezes já ouvimos – ou dissemos – isto?
O problema não é reconhecer dificuldades. O problema é acreditar que o nosso destino depende sobretudo delas. Enquanto acreditarmos que não depende de nós, faremos pouco. Iremos com o vento.
Os nossos egrégios avós descobriram o mundo quando aprenderam a navegar contra o vento. Aprenderam a bolinar. E isso mudou tudo. Deixaram de ir para onde o vento os levava. Passaram a navegar para onde queriam ir e assim “deram novos mundos ao mundo”.
Não é a sorte que separa países que crescem de países que estagnam. É a convicção de que o resultado depende das escolhas que fazemos. Quando assumimos responsabilidade pelo que fazemos – e pelo que deixamos por fazer – começamos a moldar o futuro.
Enquanto nos virmos como vítimas das circunstâncias, continuaremos a agir como tal.
O futuro não é a sorte, é o que construirmos.
3. Quero para mim. Agora.
Também gostamos de dizer que as reformas são como plantar sobreiros: dão frutos, mas para os netos.
É uma narrativa é confortável. Permite adiar. Permite aceitar mais um ano de crescimento anémico. Mais uma década de convergência falhada.
Mas até na plantação de sobreiros a inovação mudou o horizonte: hoje, com novas técnicas, é possível tirar a primeira cortiça em cerca de dez anos.
E, na Conferência do Business Roundtable Portugal, em 2024, Helena Sacadura Cabral disse algo que captura perfeitamente esta questão: “Com 89 anos, o que é que eu quero para Portugal? Quero imensa coisa, e não é para os meus netos, é para mim.”
Esta frase é um murro na mesa.
Não podemos aceitar mais 20 anos de crescimento medíocre. Nem sequer mais um ano. O sentido de urgência tem de ser total.
Não podemos ter vergonha de querer um país mais rico e desenvolvido para nós próprios pois isso muda o nível de exigência. Obriga-nos a agir agora. Obriga-nos a sair da zona de conforto. Obriga-nos a decidir.
Um choque de cultura não se decreta. Assume-se.
Assume-se quando dizemos, sem hesitação:
1-Portugal pode e deve ser muito melhor.
2-O futuro é o que fizermos dele – a sorte é para os fracos.
3-Quero para mim. Agora. Com sentido de urgência total.
Se estes três princípios deixarem de ser frases e passarem a ser prática diária – nas empresas, na política, na administração pública, nas universidades, e em cada um de nós – então sim, já este ano – ano após ano, podemos transformar o país.
Portugal já soube navegar contra o vento.
Está na hora de voltar a fazê-lo.
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