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Os votos que voltam atrás

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21.02.2026

A esta altura dos acontecimentos, já tudo – ou quase – foi dito relativamente às eleições presidenciais. No entanto, e após o avolumar do achincalhamento a Ventura em Alcácer do Sal, onde as pessoas – mesmo em sofrimento – preferiram Seguro, continuo a ser confrontado com textos apocalípticos – sempre dos mesmos autores – relativamente ao que aí vem, e advém, da vitória de Seguro.

Ao reler esses arrazoados (os tais textos), cujo fel, azedume e azia apresentada, ainda me podiam provocar uma doença grave (como a que acometeu aquele que, sem ele, nada acontecerá em Portugal) resolvi vir à liça.

Ando a reler Hannah Arendt e a Banalidade do Mal (em Portugal entendo que entrámos na banalidade da indecência). Como diz a autora, em carta a Gershom Scholem: “Só o Bem tem profundidade e pode ser radical” (nota pessoal: Como é o Amor de Cristo). Infiro que o mesmo se passa com a decência (que anda de mãos dadas com o Bem).

Aprecio, igualmente, a conclusão da mesma Filósofa quando afirma (na introdução do livro The Life of the Mind) que “a perversidade pode ser causada pela ausência de pensamento”. Volto a inferir: O mesmo se passa com a indecência (que anda de mãos dadas com a perversidade).

É, pois, com sinceridade, que não consigo compreender, como é possível que articulistas de renome, possam vir falar de Ventura como agregador do espaço não socialista, quando o mesmo não fez outra coisa senão achincalhar e ofender o CDS, o PSD e a IL. Percebo que esses comentadores tenham pressa, pois, como pessoas inteligentes que são, têm a noção que, quanto mais tempo passa, mais todos nós nos vamos cansar do espectáculo indecente que é o CHEGA e o seu líder (bastaria assistir aos argumentos (à falta deles) aduzidos pelo líder do CHEGA no Parlamento – no rescaldo das tempestades – para concluir que se está perante alguém impreparado e que vive do dichote.

Nesta altura, volto a Arendt para recordar a sua crítica a Heidegger quando refere a “estranha aliança” – no pensamento dele – entre a filosofia e a e ausência de reflexão e julgamento! É mesmo isto: A falta de reflexão e crítica ao discurso do CHEGA e de Ventura, por parte de pessoas de bem, é assustadora (a argumentação – que li! – que a eleição para Presidente não era um concurso de boas maneiras ou de entrada na carreira diplomática é tão confrangedora que mete dó).

Mas vamos aos resultados eleitorais que, agora, são trazidos – constantemente – por parte dos escribas cheganos, como demonstrativos de uma força que merece governar o país: Ventura perdeu e Seguro ganhou. Pouco me interessam os votos negativos que ajudaram Seguro a ser eleito (os votos em Ventura foram todos pela positiva? Não me façam rir, ou será que sonhei quando ouvi Ventura a pedir o apoio – antes de apelar à abstenção – de todos os não socialistas?). Votos negativos existiram em ambos os candidatos. E não: Nem aqueles que votaram Seguro, contra Ventura, passarão a votar PS, nem os que votaram Ventura, contra Seguro, passarão a votar CHEGA. Os votos voltam atrás, quando assim tem de ser.

Bem podem os articulistas aliados de Ventura vir com contas mirabolantes. O povo português rejeitou o líder que se reclama de toda a direita (o que tem graça, uma vez que nem Ventura, nem o CHEGA são de direita).

A esmagadora maioria dos votantes quiseram, desejaram – e tiveram – decência em Belém. Ventura não convenceu quanto à sua capacidade de respeitar instituições. Não foram as elites que o derrotaram, foi o povo. Dando de barato que Ventura não se revê em comentários feitos por quem tem pouco QI como foram os que afirmaram que quem votou em Seguro foram as elites (o que faria que em Portugal só teríamos 30% de povo) mas que, o que queriam dizer (julgo eu) era que: O povo é ignorante e vota onde as elites lhe dizem para votar. Como ficamos? O povo é sábio quando vota no CHEGA e ignorante quando não?

Mas, o que irrita deveras os autores dos textos, é o facto de Montenegro ter sido um dos vencedores das eleições presidenciais. Ao contrário da – esmagadora – maioria dos analistas e comentadores, entendo que foi um vitorioso da noite eleitoral (bastariam as reacções dos acólitos de Ventura para o provar). A sanha contra o 1º Ministro é tal que o juntam à derrota de Marques Mendes (que ele não podia deixar de apoiar, já que era, em compita, o único militante do seu partido). Não deixa de ser interessante que, logo após as eleições, o Ministério Público – aquele que Ventura quer a eleger o PGR – fez constar que investiga mais uma coisa qualquer da casa do 1º Ministro…

Notemos ainda: Tivesse Montenegro apoiado Seguro e agora – com razão – o CHEGA podia vir reclamar que tinha existido o bloco central. Como tal não aconteceu, Ventura foi encostado às cordas. Como Montenegro também não apoiou Seguro, o tema PR acabou na noite das eleições. Quem quiser deitar abaixo o Governo, corre por sua conta e risco. Ventura e os seus discípulos estão para aí virados (o tempo urge…) e daí reunirem o governo assombrado (foi uma mini reunião ministerial, mas, mesmo assim, o suficiente para assustar qualquer um que não tenha déficit cognitivo).

Por muito que os cheganos esperneiem e vociferem, berrando que foi uma derrota da direita e que vai existir um ressurgimento da esquerda, a verdade é que não conseguem esconder o facto de a débacle de Ventura ter sido pessoal. Ponto. E por falta de: Pensamento e decência. Final parágrafo.

A maioria não socialista continua a existir (ainda bem). O que essa maioria não quer é que seja Ventura a liderá-la. E não quer, pela simples razão que nunca viu em Ventura a capacidade de agregar, de juntar, de ser decente. Bem podem os apóstolos venturianos reclamar da oportunidade perdida. A verdade é que quem a perdeu foi Ventura.

[Sabendo Ventura, de antemão, que nunca seria eleito, e sendo tão patriota e anti-socialista, porque não desistiu a favor de Cotrim? É que esse tinha hipóteses de ganhar a Seguro (penso eu de que…) Eu sei: Porque apostou num resultado (que não teve)]

Concluindo: Se, no Parlamento, do centro para a direita estão representados 70% dos portugueses e na presidência estão também 70% do mesmo povo, que conclusões retirar? (já comentei a idiotice do CHEGA considerar que quem votou em Seguro terem sido as elites…) A conta é bastante simples e talvez seja tempo das pessoas – as que têm 2 dedos de testa – que apoiam Ventura, lhe façam ver: 90% dos que NÃO votaram na esquerda e no CHEGA nas legislativas, não subscreveram – na 2ªvolta das presidenciais – a indecência a falta de ideias e de pensamento.

Os que acabaram por votar em Ventura, por repúdio a Seguro, são votos que vão voltar para donde vieram. São votos que vão voltar atrás. Assim como são aqueles que votaram Seguro apenas por decência.

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