A banalização da estupidez
O leitor poderá estar a par da tese de Hannah Arendt relativa à banalização do mal. Essa sua tese foi – infelizmente – muitas vezes treslida. Como bem diz Richard. D. Evans em os Cúmplices de Hitler: Arendt não quis dizer que o mal era praticado por qualquer um de uma forma mecânica, burocrática, ou seja, que qualquer um é capaz de o praticar. Não. O que Arendt quis dizer é que não precisamos de ser psicopatas ou sociopatas. Basta-nos ser cobardes. Basta-nos não ligar. E que o ambiente em que se vive, ajuda. Esta é a banalidade do Mal.
E é, igualmente, a banalidade da estupidez.
Para esta última – tal como para a primeira – não é necessária nenhuma predisposição genética, mas apenas um ecossistema que permite e potencia a dita, ao qual se junta um conjunto de pessoas que, por motivos vários, não se incomodam por serem vistas como estúpidas (adicionando-se aquelas que o são de verdade).
O ecossistema que tem vindo a ser criado – começou na esquerda e a direita, infelizmente, entrou no jogo – é o de cavar trincheiras entre esquerda e direita, entre o liberal e o conservador. Para quem gosta de viver neste sistema (digamos que básico) existe a necessidade de estar sempre do lado contrário daqueles a quem se opõe (Michael Dibdin em Dead Lagoon afirmava: “Não pode haver verdadeiros amigos sem verdadeiros inimigos (..)”. Ora, isto é falso (e não é Cristão). Ao embarcarmos nesta dicotomia, tornamo-nos estúpidos, pois a razão não é uma epifania – muito menos colectiva – é uma construção: Demorada, trabalhosa.
Um energúmeno – bêbado segundo o próprio veio, mais tarde, a admitir – agrediu um actor do Teatro A Barraca. Veio logo a esquerda afirmar, peremptoriamente, que era um acto fascista. Não era. Era um estúpido a fazer coisas estúpidas. Alguém – ainda não se sabe quem – certamente muito estúpido, atenta contra a vida dos marchantes da Marcha pela Vida. A extrema-esquerda ainda não se manifestou. O que é estúpido. Assim como é estúpido (por parte da extrema-direita), antes de se saber mais, acusar o estúpido de ser de esquerda. E, mesmo que o seja, argumentar que a maioria da violência (de índole política) é praticada por parte de energúmenos de esquerda acaba por, mesmo que involuntariamente, justificar futuros actos de violência praticados por energúmenos de direita. O “melhor” daquela situação foi a humanidade dos marchantes relativamente a quem lhes queria fazer mal. As acusações, feitas por ambos os lados, visam catalogar todo e qualquer um de nós. Mas – e essa é a verdade – nós não somos todos........
