Litania por um corpo abandonado
Certo dia, em maio de 1562, foram descobertos por pura casualidade numa gruta perto da cidade de Maní, no Yucatan, território maia e dos novos colonizadores espanhóis, estátuas, cântaros aspergidos com sangue e códices que continham, em desenhos de traço preciso, os cômputos astronómicos dos séculos. Os herdeiros de um saber que se expressava no vermelho do fogo e no negro da noite haviam transportado secretamente os códices para a gruta, escondendo peles de ocelote sob túnicas de papel de casca de árvore, com a intenção de, posteriormente, os trasladar para as montanhas.
A pressão eclesiástica era tremenda e, enquanto persistissem as velhas crenças sobre a flor, o sílex, o veado, o coelho, o cão, o junco e a árvore quebrada de Tamoanchan, a opressão não deixaria de se fazer sentir. Aquilo a que os espanhóis chamavam ídolos eram afinal calendários, rodas que marcavam a pedra dos dias, estatuetas de obsidiana com lágrimas de ouro e listas dos aparecimentos e desaparecimentos de Vénus-Quetzalcoatl, a serpente emplumada. Muitos dos códices vinham da biblioteca de Texcoco.
Assim que a palavra “sangue” chegou aos ouvidos de Diego de Landa, frade franciscano e inquisidor, estava ele a concluir o projecto da nova igreja de São Francisco, que seria erguida sobre um santuário maia arrasado meses antes. Era um homem de rosto magro e mãos delicadas, a testa franzida por uma vontade de ferro, e que gostava de demonstrar o seu conhecimento da língua maia ao povo comum.
Convencido de que a idolatria constituía um real impedimento ao progresso da cristianização, ordenou que lhe fosse trazida a descoberta e convocou os chefes, os sacerdotes e os escribas. Onde o sangue tivesse sido........
