Hipócrates, a minha avó e as cabras de Quevedo
«Ter pensamentos negros», dizia a minha avó, que pouco estudou mas que, no entanto, sabia dizê-lo – esse desânimo da alma que nos esmaga contra o chão, como corolas amassadas de flores arrancadas. Sabedoria de um pequeno mundo antigo feito de poucas palavras, de alguns gestos, do melhor vestido para a feira, de um caderninho de receitas escritas à mão com caligrafia esmerada e da nota de vinte escudos dobrada em quatro para enfiar no bolso do neto quando ele não visse.
A minha avó nunca consultou um dicionário, mas é precisamente esta a etimologia de melancolia: do grego μελαγχολία (melancholía), composto por μέλας (mélas), a escuridão, o negro, e χολή (cholé), a bílis. De acordo com a medicina clássica (a primeira atestação do termo encontra-se no Corpus Hippocraticum do século V a.C.), a bílis negra era um dos quatro humores capazes de causar tristeza, desânimo, fraqueza, sensação de vazio e incapacidade de sair da cama pela manhã, porque, ainda que lá fora faça sol, por dentro está tudo escuro.
Em 1580, veio ao mundo nas montanhas da Cantábria, filho de pais nobres, Francisco de Quevedo y Villegas, poeta satírico e leitor voraz. Como nasceu manco de ambos os pés e terrivelmente míope, teve de se defender dos rapazes que escarneciam da sua forma de andar com a aspereza de uma língua propensa ao sarcasmo e ao amor trágico. A sua infância foi triste e solitária. Ao mesmo tempo que lutava contra a melancolia, esforçava-se por seduzir com palavras. Dominava com mestria as línguas clássicas, o italiano, a física e a matemática. Para ele, um soneto era como um diamante bem lapidado, que valia pela sua transparência, e não, como para Gôngora, uma joia admirável pelas suas cores e engaste. Rapidamente se interessou pelo chiste e pela pilhéria, celebradas tanto pelas pessoas comuns como pelos homens e mulheres da corte. Quando Quevedo soube que a sua vida........
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