Daphne, Hesíodo e as vogais de luz
Envolvemos em tecido uma nudez antiga, extremamente ferida, quase infantil, que permanece sem expressão no mais fundo de nós: são muito antigos os sons que dentro de nós vagueiam. Talvez por isso vivamos para aquele momento de súbita iluminação em que algo raro e irrepetível, amarrando esse ruído, ata o som e a sua luz num feixe de sentido. Talvez seja isso o amor: um relâmpago preso cuja nostalgia deseja permanecer. Desde antigamente.
Em fevereiro de 1937, percorrendo os campos de Tessalónica, o botânico e helenista Hans Brenner, de Dresden, ouviu a professora e bibliotecária Daphne Sasón a cantar em grego clássico. Passeava com os seus alunos pelo campo. Tinha uma voz suave, quente e profunda. Não foram necessários muitos segundos para o alemão reconhecer as sílabas de Hesíodo.
Trocaram algumas palavras, o estrangeiro distribuiu alguns biscoitos pelas crianças e depois acompanhou-as até à escola. No caminho, ele viu as primeiras papoulas e dentes-de-leão, e ela que ele era alto, moreno e gentil. Ficou perplexo quando Daphne falou ladino com outros professores da escola. Tornaram-se vagamente amigos, aprendendo a entrançar o tempo entre o pobre inglês de ambos e o grego moderno. Evocaram Homero e falaram de Elêusis e dos antigos santuários. Ela levou-o à biblioteca, onde coexistiam livros em grego e hebraico. Sentiam, mas negavam, uma atração mútua, através da qual fluíam as tragédias de Eurípides com os seus adjetivos contundentes e metáforas límpidas.
Ela apresentou-o à sua família. Nada, naquele momento, fazia suspeitar da tragédia que se avizinhava. Nada tão-pouco permitia imaginar que este homem, Hans Brenner, de Dresden, regressaria a Tessalónica com o exército invasor e com a patente de tenente. Em Maio de 1942, ele não sabia que a comunidade sefardita da cidade seria confinada, saqueada, espezinhada e por fim transportada para um dos muitos campos de morte. A biblioteca estava cheia de crianças fazendo os........
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