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Inteligência degenerativa (1)

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16.02.2026

1 Os gregos somos nós

A magia da mitologia grega resulta da dúvida permanente em que somos colocados: os mitos falam para nós ou falam de nós? A familiaridade que sentimos resulta, provavelmente, de falarem de nós, de uma natureza humana que é comum, mas também de uma civilização que nasceu a partir deles e que mantém, nesse sentido, uma contínua conversação com o passado. É por isso que podemos regressar a eles continuamente e ouvir o que têm para nos dizer.

E nenhum mito é tão revisitado como o mito de Prometeu, aquele em que o titã é castigado por ter dado aos homens o poder do fogo e que Zeus condena a uma estadia no Cáucaso, que inclui uma águia que lhe arranca todos os dias um fígado regenerador que garante a eternidade do castigo.

Peter Paul Rubens, Prometheus Bound (1612)

É assim que, em Odisseia, Stephen Fry termina com uma reflexão que nos interpela diretamente, a nós que vivemos esta terceira década do século XXI: até que ponto podemos encontrar no mito de Prometeu ecos da nossa preocupação quanto à inteligência artificial? Afinal,

“Se nós, humanos, criações de Prometeu, controlássemos o fogo, Zeus receava que não necessitássemos dos deuses para adorar e lhes obedecer; podíamos abolir os nossos próprios criadores. Zeus tinha razão. Abolimos. E agora nós somos Zeus. Tememos as entidades que criámos.”

E a história repetir-se-ia:

“Se um Prometeu existente no meio de nós desse à IA consciência, a centelha divina, então a humanidade podia tornar-se uma memória mítica, uma história sobre as origens que as máquinas contariam a si mesmas, enquanto nós nos desagregamos numa estatuária partida juntamente com Zeus e o seu panteão antes de nós.”

É verdade que os grandes desenvolvimentos tecnológicos geraram sempre reações negativas, respostas luditas às promessas cândidas de progresso. Mas talvez nenhum desses desenvolvimentos nos tenha deixado tão inquietos como as maravilhas prometidas pelo admirável mundo novo da inteligência artificial generativa. Não são só as alucinações, os........

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