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Culpa e Nostalgia

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27.02.2026

Depois de Tolstói ter escrito Guerra e Paz, de Dostoiévsk Crime e Castigo e de Isaiah Berlin O Ouriço e a Raposa, qualquer título que junte dois substantivos corre o risco de parecer um mero exercício de falta de originalidade. Contudo, se olharmos com frieza para as dinâmicas que movem — ou melhor, que travam — o nosso tempo, perceberemos que o mundo ocidental é hoje largamente governado por dois sentimentos tão profundos quanto paralisantes: a culpa e a nostalgia. Ambos são, no fundo, o sintoma trágico de uma sociedade incapaz de decidir o seu futuro.

Comecemos pela nostalgia, que introduziu uma alteração radical na nossa bússola temporal. Durante séculos, a modernidade habituou-nos a olhar em frente. O futuro era o território natural da esperança, o lugar onde a promessa de felicidade seria, por fim, concretizada. Acreditávamos no progresso como uma força irresistível, um vento da História que nos empurrava para um amanhã invariavelmente melhor. Hoje, tudo mudou. Como Zygmunt Bauman diagnosticou no seu conceito de Retrotopia, o nosso desejo deslocou-se. Em vez de uma utopia por construir, ansiamos agora por um passado idealizado que julgamos ter sido indevidamente abandonado — um tempo de ordem ao qual, no nosso desespero presente, até estaríamos dispostos a perdoar misérias e injustiças.

No outro extremo do espetro, temos a culpa. E aqui é fundamental não confundir este sentimento com o arrependimento genuíno. O arrependimento nasce da gratidão, da consciência de uma falha perante algo ou alguém que nos transcende; é um movimento construtivo que nos obriga a sair de nós próprios e a ir ao encontro do outro. A culpa que hoje nos domina é, pelo contrário, uma força puramente asfixiante. Ela emerge de um vago sentimento de dívida e da nossa trágica incapacidade de corresponder a uma imagem de pureza moral inatingível. Inaptos para lidar com as suas próprias imperfeições, muitos acabam a fazer uma revisão de si mesmos e da História marcada por uma neurose punitiva, projetando no espaço público e nas instituições as suas próprias dissonâncias e frustrações pessoais.

Ora, tanto a nostalgia retrotópica como esta culpa neurótica partilham um mesmo vício de origem: são movimentos profundamente egocêntricos, espelhos de um narcisismo de época. Ambos nos encerram numa prisão conceptual onde apenas dialogamos com as nossas próprias expectativas, com memórias fabricadas e com a nossa impotência. No entanto, uma verdadeira ética — e, por arrasto, uma verdadeira política — nunca pode nascer deste olhar estéril, porque exige sempre uma rutura radical.

Recorrendo à célebre imagem de Emmanuel Levinas, é preciso contrapor Ulisses a Abraão. O herói grego aventura-se pelo mundo apenas para regressar a Ítaca, à segurança do lar e ao conforto do que já conhece. Abraão, pelo contrário, abandona a sua pátria rumo a uma terra desconhecida, numa abertura total ao imprevisto e ao outro, para não mais voltar.

O verdadeiro antídoto para estes dois polos de desresponsabilização — a fuga para o passado e a autoflagelação no presente — passa por rompermos com este ciclo fechado. Nenhuma ordem moral ou política sobrevive se for apenas um exercício de gestão de ressentimentos, como nenhuma ética pode existir se não se iniciar na relação primordial com os mais vulneráveis e aqueles que não pertencem ao sistema, porque de facto, é a justiça que antecede a liberdade, e não o contrário. Na verdade, não é a afirmação histriónica dos nossos caprichos que nos torna livres. A verdadeira liberdade consiste, antes de mais, no reconhecimento de que somos infinitamente responsáveis pelo mundo que partilhamos. Só assumindo o peso dessa responsabilidade conseguiremos, finalmente, deixar de pedir desculpa por existirmos ou de ter saudades de um mundo que nunca existiu.

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