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Ou usamos critérios ou desistimos de tudo

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04.10.2026

Há uma tentação muito contemporânea de resolver problemas morais complexos através de soluções materiais simples. Uma pessoa fez algo moralmente condenável? Retira-se a obra. O autor tornou-se insuportável aos nossos olhos? Tapa-se o mosaico, muda-se o nome, esconde-se a fotografia, arruma-se o livro na cave. Há qualquer coisa de tranquilizador neste mecanismo: o mal fica aparentemente delimitado, nós ficamos do lado certo e o mundo regressa por alguns instantes à sua ordem. O problema é que a história, a arte e até a própria condição humana têm o péssimo hábito de não caber nesta arrumação. E, se queremos levar a moral a sério, temos de começar precisamente por não a transformar numa espécie de desinfetante cultural.

Volto ao caso de Marko Rupnik porque, depois do que escrevi anteriormente, me fizeram uma objeção que merece ser levada a sério. Neste caso, dizem-me, não estamos simplesmente perante a vida privada pouco recomendável de um artista. As acusações que lhe são dirigidas — e escrevo acusações porque o processo canónico continua a exigir as garantias próprias de um processo judicial — envolvem abuso sexual, psicológico e espiritual e, segundo algumas denunciantes, elementos da própria linguagem religiosa e artística terão sido envolvidos nesses mecanismos de abuso. É evidente que isto torna o caso especialmente doloroso e que não pode ser despachado com a facilidade de quem diz simplesmente: “uma coisa é o homem, outra é o artista”. A Santa Sé abriu um processo canónico judicial e, em julho deste ano, esclareceu que não existia ainda qualquer decisão dos juízes.

Mas reconhecer esta gravidade não resolve a pergunta que verdadeiramente me interessa. Pelo contrário, torna-a ainda mais necessária: a gravidade moral de quem produz uma obra transfere-se para a obra de tal maneira que esta fica moralmente contaminada? É aqui que começo a ter dificuldades. O mal não se torna mais mal por ter sido cometido por um sacerdote, como não se torna menos mal por ter sido cometido por um pintor, um professor, um médico, um político ou um pai de família. Um sacerdote tem responsabilidades específicas e acrescidas porque exerce uma autoridade espiritual e porque pode abusar precisamente da confiança que lhe é entregue. Isso constitui uma agravante séria. Mas a dignidade da vítima não depende do estado clerical do agressor. Se aceitarmos o contrário, criamos uma estranha moral por categorias profissionais: determinados pecados........

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