Calvário do Século XXI: silêncio sobre a perseguição cristã
À medida que nos aproximamos da Páscoa, o momento mais alto do calendário cristão, a narrativa da Ressurreição confronta-se com uma realidade crua e, para muitos, inconveniente: a “crucificação” sistemática de milhões de crentes em pleno ano de 2026. Falar de perseguição religiosa hoje exige coragem para evitar o “concurso mediático” de vitimização, mas exige, acima de tudo, o rigor de admitir que os cristãos são, atualmente, o grupo mais perseguido do planeta.
Das Catacumbas ao Eixo do Mundo
O Cristianismo não nasceu nos palácios, mas nas margens e nas catacumbas. Surgiu como uma seita dissidente no Império Romano, pregando uma dignidade humana que chocava com as hierarquias da época. Ao longo de dois milénios, esta fé transformou-se na espinha dorsal do Ocidente. De um pequeno grupo de apóstolos, tornou-se uma força de 2,6 mil milhões de pessoas.
No entanto, este percurso não foi uma linha reta de santidade. Para contar a história “de uma porta à outra”, temos de ter a honestidade intelectual de olhar para o que de mal se fez em nome da fé.
De Religião Perseguida a Eixo da Civilização
É impossível compreender a dimensão do Cristianismo sem olhar para o momento em que a Cruz se cruzou com a Águia Imperial. Quando, no século IV, o Império Romano adotou o Cristianismo, primeiro com a tolerância de Constantino e depois como religião oficial com Teodósio, a fé cristã ganhou uma projeção sem precedentes. Roma deu ao Cristianismo a sua língua, o seu direito e as suas estradas, transformando uma mensagem espiritual numa estrutura civilizacional. Foi esta simbiose que potenciou o Cristianismo como o grupo religioso de maior impacto no nosso hemisfério, as fundações do que hoje chamamos ‘Ocidente’ foram lançadas sobre o cimento romano e a ética cristã. Portugal, Espanha e o resto da Europa não foram apenas herdeiros de Roma, foram os seus continuadores, levando este simbolismo a todos os cantos do mundo.
Guerras, Cismas e Inquisição
Não podemos ignorar as cicatrizes que a própria Igreja infligiu ao mundo e a si mesma. Do Grande Cisma de 1054 às guerras sangrentas da Reforma e Contra-Reforma, o nome de Cristo foi usado, por vezes, como estandarte para o poder e a exclusão. Houve perseguições, houve a Inquisição, houve o uso da cruz para justificar abusos coloniais.
Reconhecer isto não é “enterrar” a fé é purificá-la. Santo Agostinho já nos falava da tensão entre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. A natureza humana não é uma esfera perfeita, é, como o nosso planeta, um geoide: irregular, achatada nos polos, cheia de imperfeições. Aprender com esses erros do passado é o que nos permite exigir, hoje, uma tolerância que o mundo parece ter esquecido de nos retribuir.
Se o passado teve as suas sombras, o presente é um grito de socorro que o “politicamente correto” tenta abafar. Segundo os dados mais recentes 388 milhões de cristãos sofrem perseguição ou discriminação severa. Ou seja, 1 em cada 7 cristãos no mundo vive sob ameaça.
Entre outubro de 2024 e setembro de 2025, registaram-se 4.849 mortos confirmados apenas pela sua fé. 15 países atingiram o nível de perseguição “Extremo”, com a Coreia do Norte a liderar o ranking do silêncio e da morte, e a Nigéria a consolidar-se como o lugar mais letal do mundo para quem usa uma cruz ao pescoço. Da planície de Nínive, no Iraque, onde a Igreja corre o risco de extinção em terras onde se fala o aramaico de Jesus, até aos regimes autoritários da China e da Nicarágua, ser cristão tornou-se um ato de resistência heroica. No Burkina Faso e em Moçambique, o extremismo jihadista avança sobre comunidades que são “perseguidas e esquecidas”.
O Geoide da Natureza Humana
Por que é que o mundo hesita em defender os cristãos? Talvez porque o Cristianismo, ao ser o pilar da nossa civilização, é visto como “o forte”, mesmo quando os seus fiéis estão a ser massacrados na Nigéria ou presos no Paquistão.
Filosoficamente, temos de entender que a tolerância não é a ausência de convicções, mas o respeito pela integridade do Outro. Como defendia o teólogo Dietrich Bonhoeffer, ele próprio vítima do nazismo, “o silêncio face ao mal é, em si mesmo, mal”. Se a natureza humana é este geoide imperfeito, a nossa única hipótese de aproximação à “esfera perfeita” da justiça é através do reconhecimento da dignidade universal.
Se a natureza humana é este geoide imperfeito, a nossa única hipótese de aproximação à ‘esfera perfeita’ da justiça é através do reconhecimento da dignidade universal. Temos de aceitar que a liberdade não é um estado de repouso ou um dado adquirido da História, mas uma construção precária que exige manutenção constante. Tal como a geometria da Terra ensina nos que a perfeição é uma ilusão de ótica, a liberdade religiosa é um terreno acidentado que exige vigilância diária contra a erosão causada pelo preconceito e pelo ódio.
Não podemos aceitar que esta liberdade seja vista como um luxo ocidental, ela é um direito inerente. A perseguição aos cristãos é o sintoma de um mundo que, ao tentar apagar as suas raízes, perde a sua bússola moral. Embora não sejamos perfeitos, temos a capacidade única de aprender com o sangue derramado, tanto o que os nossos antepassados fizeram correr, como o que hoje corre nas veias dos nossos irmãos no Oriente e em África. Terminar este texto sem denunciar que o povo de Cristo é, hoje, o alvo principal do ódio global seria uma omissão imperdoável. Que esta Páscoa seja mais do que tradição: que seja um compromisso com a verdade e com a proteção daqueles cujo único crime é a fé que professam
P.S. — Para quem lê estas linhas, saiba que quem as escreve é um católico apostólico romano de fé inabalável. E digo inabalável porque, veja-se bem, sou Sportinguista e acredito em Fátima. Se consigo conciliar a esperança de um título com a devoção ao milagre, acredito piamente que podemos encaixar todos neste mundo, desde que a tolerância deixe de ser um slogan e passe a ser um comportamento. Afinal, se o Sporting ensina nos a paciência e Fátima ensina nos a esperança, o mundo só precisa de aprender a respeitar quem acredita.
Receba um alerta sempre que Nuno Nabais Freire publique um novo artigo.
