"E se Deus não for a interrupção da razão, mas a sua origem?
Há uma pergunta que atravessa a história da ciência como uma ferida aberta: por que razão o universo é inteligível?
Einstein formulou-a de um modo que continua a desconcertar. Como é possível que a matemática produto do pensamento humano e em larga medida independente da experiência se ajuste com uma precisão quase inacreditável aos objectos da realidade física? Não se trata apenas de saber por que uma equação funciona. A pergunta é anterior. Por que existe uma correspondência entre a estrutura da nossa razão e a estrutura do mundo?
A matemática não pesa. Não tem temperatura. Não ocupa espaço. Um número primo não flutua no interior de uma estrela. O teorema de Pitágoras não nasceu no instante em que alguém olhou para um triângulo. A geometria de Riemann foi desenvolvida como construção abstracta. Décadas mais tarde tornou-se uma das linguagens da gravidade na relatividade geral. As equações pareciam existir antes de sabermos para que universo serviriam.
Talvez o mistério não seja só o facto de conseguirmos compreender o universo. Talvez o verdadeiro mistério seja haver alguma coisa para compreender.
A ciência parte de uma confiança que raramente discute, a de que a realidade possui ordem, de que essa ordem pode ser expressa em estruturas matemáticas e de que a mente humana pode, pelo menos em parte, reconhecê-la. Essa confiança tornou a ciência possível. Não é uma conclusão da ciência. Não podemos usar uma equação para demonstrar por que as equações correspondem ao mundo. Não podemos meter o universo inteiro num laboratório para testar a hipótese de que o universo é inteligível.
A ciência descreve a ordem. A pergunta permanece, de onde vem a possibilidade da ordem?
Foi neste território que Kurt Gödel avançou por outro caminho. Levou a sério a ideia de que a razão humana não é apenas uma máquina de manipular símbolos. O teorema da incompletude mostrou que, em sistemas formais suficientemente poderosos, há proposições verdadeiras que não podem ser demonstradas a partir das regras internas desse mesmo sistema. A consequência filosófica é mais profunda do que a fórmula deixa ver à primeira vista, um sistema não consegue, em geral, esgotar a verdade a partir de dentro de si próprio.
Isto não prova Deus. Prova, quando muito, o limite de qualquer fechamento formal. Gödel, porém, era um realista. Acreditava que as verdades matemáticas não eram meras invenções humanas e que a razão podia ter acesso a uma realidade que não dependia da nossa vontade. O mesmo homem construiu, em lógica modal, uma versão formal do argumento ontológico. Tentou perguntar se a existência de um ser absolutamente perfeito podia ser tratada não como superstição exterior à razão, mas como........
