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São Chiquinho, a pessoa que

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26.02.2026

A redenção do pecador é um tema recorrente na história da velhinha moral Cristã, incluindo nos tempos modernos. Desde Norma McCorvey, a famosa “Jane Roe” em Roe Vs. Wade, passando por C. S. Lewis e, claro está, a notável conversão de Edith Stein, discípula ateia de Husserl tornada Carmelita, é larga a estrada da conversão. Aliás, tanto assim é que os alicerces da própria Igreja se fazem de famosos pecadores convertidos ao Dogma e à Verdade: Santo Agostinho, claro, que “tomou e leu” a Bíblia para se tornar num dos pilares do pensamento Cristão Ocidental, tal como, sempre presente, São Paulo, o perseguidor Saulo que, na estrada de Damasco, se transformou no maior apóstolo Cristão, o “Apóstolo dos Gentios”, levando a mensagem de Cristo para lá das fronteiras judaicas, para todo o mundo Romano.

É, portanto, uma longa tradição, a da conversão, naturalmente aproveitada pelo Novo Dogma mediático-moralista dos nossos dias. E um privilégio o qual nós, gente de pouca fé, apenas pode agradecer pela oportunidade de testemunhar, em particular de modo tão directo, sem filtros, como foi no caso de Francisco Rodrigues dos Santos, o célebre Chicão, na sua amena conversa com Mafalda Anjos — atentai no nome, senhores, é uma pista.

Salvé! Salvé! Que alegria quando o milagre da redenção acontece, ainda para mais em tempos tão negros, macambúzios, pejados de corações vis e torpes, fascizóides, enegrecidos pela concupiscente obsessão pelo poder, fama e o sempre egoísta interesse particular. Quão raro é hoje, em tempos de apagado e desonrado atomismo social, vermos um dos nossos, um daqueles pecadores como nós, capaz de rasgar os atilhos da obscuridão conservadora, abandonar a sua identidade retrógrada e, descalço, penitente, de cabeça baixa, caminhar rumo à salvação mediática!

Raro, é verdade, mas, talvez por essa razão, também experiência única, marcante, valiosa, que pelo exemplo e a abnegação apenas pode iluminar-nos a alma quando tão puros espíritos morais, anjos plenos de candura democrática, se redimem e, em plenos pulmões, anunciam ao mundo a sua salvação. Onde antes, cego, caído por terra, às portas de Damasco, São Paulo perguntou “Que farei, Senhor?”, hoje Francisco Rodrigues dos Santos, coveiro do CDS-PP, o Chicão da direita ultra-conservadora, exultante, anuncia a quem o queira ouvir que “já não se considera uma pessoa de direita” — e não se enganem, em nada o talento, a virtude e a convicção do segundo ficará atrás da do primeiro.

Perante tais palavras, as de Chicão, não tocou o hino, o da Internacional, mas devia. Não obstante, cumprindo o seu dever, a interlocutora, uma das jornalistas mais aliviadas de esforço mental da manada mediática portuguesa, rapidamente abriu os braços e, feliz, maternal, acolheu a anteriormente tresmalhada ovelha no seu colo aconchegante, regaço quente e farto, palpitante, oferecendo as boas-vindas àquele que, renegando velhas convicções, ali foi ungido e autorizado a partilhar da nova luz, a esperança balida em uníssono pelo rebanho da verdade moral, racional, intelectual, universal. Ah, o fino sabor da concórdia social, útero inconsciente próprio do Ouroborus que apenas o Todo aconchega! Ah, doce o mel sorvido avidamente por aquele, Chicão, que, resfolegando a cabeça pesada pelo pecado anterior no abraço oracular feminino, escuta agora com devotado alívio aquilo que aquela lhe sopra, em surdina, com hálito quente e húmido, às orelhas: “tu és tão boa pessoa, agora sim, és um dos nossos”.

Depois, desfeito o abraço ritual, ajoelhado perante o peso enorme da virtude que se prepara para carregar nos seus frágeis ombros, prosseguiu a conversa como que no sagrado recolhimento por trás do ralete — e nós a escutá-la! —, sempre prontos os intervenientes para o mútuo elogio, a concórdia moral, a auto-congratulatória virtude apenas autorizada aos eleitos. Assim se fez a conversão de Chicão — na intimidade da amizade, tratando-se por ‘tu’, oferecendo o seu coração no altar da rectidão política e social, um coração até aí fechado do mundo no breu do conservadorismo radical, um coração que viu ali a luz, a iluminação, a salvação!

Foi nesse momento cósmico de transformação política, juntando-se, nas palavras maternais e sedutoras da sacerdotisa de serviço, ao ilustre grupo de “pessoas notáveis, com percursos notáveis” que por ali deambulam, que Chicão, finalmente exangue pelo esforço da subida ao Olimpo, terminada a sua “travessia do deserto”, ajoelhado perante o povo, assume o deixar para trás das suas antigas vestes — “nunca fui autêntico enquanto líder do CDS”, admite — e, desnudado, finalmente verdadeiro, mostra ao mundo a sua pura e alva essência — “hoje”, proclama, “sou a versão mais perfeita de mim próprio”. Merecia ovação!

Ainda assim, humilde, reconhece que não deve a capacidade para vislumbrar a verdade que, entretanto, o inundou apenas a si próprio. Não, “foi o amadurecimento neurológico do seu ser”, o mesmo que o faz agora reconhecer os malefícios do mercado livre — do qual “não gosta” —, bem como os seus profundíssimos pecados antigos. Afinal, penitencia-se o proto-santo, “estava errado a propósito do casamento gay”. É verdade! Uns saem do armário — melhor será dito do “roupeiro”, mais de acordo com o original inglês —, outros, como Chicão, “saem da bolha”, acordando agora todos os dias na verdade da assunção empática de que há muitas formas de viver as relações e a família — revelação que lhe oferece, admite, “um brilhozinho nos olhos”.

É, portanto, de olhos cintilantes que, fora da sua “ilha”, rebentada a sua “bolha”, abrindo-se ao mundo e aos outros, agora compreendendo-os na sua plenitude, aceitando-os como amigos — a todos, sem excepção!, que se lhe atravessem no caminho — não olha mais para ideologias políticas. E assim, de olhar vivo e brilhante, se faz Chicão todos os dias à estrada, “não guardando nunca rancor”, porque “não tem vaidades”, “perdoando tudo” e trauteando o seu novo mantra: “gosto que gostem de mim e gosto de gostar dos outros” — seja quem for, venha de onde vier, Chicão tem sempre disponível para partilhar o seu brilho nos olhos, um abraço e a fé inabalável de quem “segue a vida de Cristo”.

Isto porque, como nos diz mais de 23 vezes ao longo de toda a confissão, há uma coisa que Chicão percebeu: “Eu sou uma pessoa que”. Ah a profundidade intelectual do espírito que se desafronta perante o mundo! Onde Descartes encontrou a sua base filosófica — “eu penso, logo existo” —, Chicão, mais brilhante, pelo menos no olhar, em alternativa, vislumbrou no limiar da realidade sensorial uma verdade anda mais real, mais personalista, mais inteira: um cogito pessoal, próprio do democrata cristão centrista, logo centrado em si próprio, naquele que “acredita sempre que as pessoas — todas — melhoram ao longo da vida”. É, portanto, “na pessoa que” Chicão vê a base filosófica do próprio pensar; já na melhoria progressiva e constante, vislumbra o telos, o destino, de si, dos outros, do mundo.

Assim, ele tem apenas uma certeza. Ele sabe, como Sócrates, o verdadeiro, apenas uma coisa: ele, Chicão, “é uma pessoa”. E, sendo uma pessoa, “é uma pessoa que”. Vai daí, há que apregoar: “eu sou uma pessoa que”, “eu sou uma pessoa que”, e assim sucessivamente, porque é dessa certeza intrínseca ao seu pensamento que a verdade sobre a sua pessoa se revela, a si e aos outros. E quanto ao “que”, perguntais Vós, incréus? Ora, o “que” é a possibilidade infinita de ser qualquer coisa. É o incerto, o novo, tudo aquilo que Chicão descobriu desde que rebentou a sua própria bolha e se abriu por inteiro ao mundo — que descobriu afinal como bom e belo desde que desfeitas as muralhas redutoras do conservadorismo atávico onde, falsamente, apregoava antes contra a sua própria natureza.

Assim, é precisamente “acreditando na natureza humana” — agora diversa, inclusiva, múltipla — que Chicão se atira corajosamente contra um mundo corrompido por um “relativismo que dilui os pilares fundamentais da natureza humana”. E é neste momento que o estudante da mente humana, entretanto psicólogo de formação — área do saber técnico que lhe abriu a mente —, dá cartas na sua revelação ao mundo. Como combater esse relativismo atroz, perguntamo-nos a reboque da semente intelectual largada por Chicão? Ora bem, seguindo-lhe a pegada. Mostrando o caminho, Chicão assume-se ele próprio como “uma pessoa que não é nem de esquerda nem de direita”; não, ele é de centro porque, atenção, para combater o relativismo nada melhor que o centrismo que, inteligentemente, consegue ir buscar, ora à esquerda, ora à direita, aquilo que, a cada momento, de melhor cada campo tem para oferecer.

Génio! É de génio! Quando o relativismo destrói os pilares, quando se perdem a referências, eis que Chicão descobre uma nova pedra basilar para a política contemporânea: definindo-se apenas na sua essência como “uma pessoa que”, aquilo que, no fundo, não sendo nada ganha a capacidade de tudo poder ser, conquista a capacidade para, diz-nos ele, a cada momento, dizer, pensar e crer no que mais lhe convém. E é com esta candura que o admite, ali, rindo-se, em animada cavaqueira, na rádio, para todos ouvirem.

Depois, claro, a tradição ainda é o que era pelo que há que assumir-se, humildemente, na sua nova condição de vítima: no caso, o “órfão político” abandonado pelo “seu campo”, ora ocupado pelas forças do Mal — o “populismo radical”. Mas da tragédia há que fazer forças, tomando para si a luta total contra esse mal que Chicão não pode tolerar, e não pode porque, diz-nos ele em discurso directo, “eu sou uma pessoa que é pela paz, a democracia, a tolerância, a urbanidade, a liberdade de expressão e a decência”. Ah São Chicão! Um homem que, humilde, admite, “sobre a Fé ter muitas dúvidas” — e só assim poderia entrar ali no círculo íntimo da Nova Moral e Nova Fé —, mas, de cabeça baixa, não deixa de confidenciar também “ser uma pessoa que compreende o Bem” e “procura viver no espírito da Graça que lhe permite apreciar o Bom, o Verdadeiro e o Belo” — da incerteza, a certeza; do relativismo, o centrismo; da “pessoa que”, uma visão para o mundo inteiro!

Ora, nem mais. É esse Bem, essa Verdade, essa Beleza, que Chicão vislumbra, sente, intui e procura trazer pela palavra e pela acção para o nosso mundo, o mundo dos comuns mortais. Acima tudo pelo seu exemplo: “eu sou”, sussurra ele, “uma pessoa que quer acreditar”, sendo a sua Fé “uma escolha voluntária”, logo construída, trabalhada, portanto, com esforços sobre-humanos, sobre essa crença de ter vontade de acreditar. Chicão, portanto, é “uma pessoa que” acredita. E acredita em quê? Ora, na “justiça social”, na “coesão social”, nos valores que hoje encontra “mais à esquerda”, mas que lhe garantem o mais importante: a felicidade — não se si, claro, mas a dos outros. Isto porque, como nos diz ele próprio citando um amigo, “eu sou uma pessoa que não consegue ser feliz vendo tanto sofrimento à minha volta”.

Chicão oferece-nos, então, a sua regra de ouro: “quando quedado no leito da morte desejará ter vivido como quis”. Isto, e também o facto de “não se levar a sério” e “ser uma pessoa nada tacticicista”, coisa que, por baixo da capa da leviandade aparente, confere-lhe, na verdade, a aura da redenção própria dos santos — afinal, como nos revela, “só consegue ser feliz se toda a gente à sua volta for feliz”. Ah, a paz interior que tamanho coração permite aos espíritos mais incansáveis! E, claro, deixa-nos a sua receita para tão altos voos teológicos: a meditação. Chicão agora adora meditar. E, por isso, dedica parte de todos os seus dias à meditação, “para pensar, porque eu sou uma pessoa que adora pensar, escrever, ler livros”.

Aqui, aparece-nos uma novidade tremenda. É que há quem medite na igreja, quem medite de joelhos à beira da cama, quem medite na praia. Mas não o nosso São Chicão. Não, esse medita no sofá. Onde, aliás, “adora estar”, porque Chicão “é uma pessoa que adora estar no sofá, a pensar, a escrever, a viajar sem sair de casa”. “Adora pensar, odeia odiar”. Chicão, aliás, é “uma pessoa que odeia ver o ódio nos outros”. Talvez pudesse ser este o seu lema: amar amar, odiar odiar. É a meta-destilação do bem: não basta, afinal, amar, é preciso amar amar; e odiar odiar. A seu tempo, compungindo, amará amar amar, tal como odiará odiar odiar — eis a espiral infinita do Bem mais puro e leve dos inocentes finalmente libertos do pecado político conservador.

No fim, terminada a confissão pública, sobrou, naturalmente, o silêncio. Um silêncio silencioso, próprio do amor pelo amor que o ódio ao ódio libertou na recém-adquirida liberdade. A pitonisa de serviço, alegre e inconsequente, passa por cima da solenidade do momento, cantando e elogiando, tagarela e oca como sempre. E Chicão, magnânimo, para celebrar, sugere como música Jorge Palma. “Enquanto houver ventos e mares, a gente vai continuar”. Continuar a quê? A amar amar, a odiar odiar”. É, portanto, desta humildade extrema que Chicão, como Saulo, não pode já continuar a ser simplesmente Chicão. Ele já não é aquela “caricatura de si próprio” que, de forma não-autêntica, em tempos idos aceitou, como penitência, carregar. Agora, “liberto da sua bolha”, “fora da sua ilha”, saindo do seu roupeiro ideológico, Chicão abre-se à humildade: de grande, passa assim a pequeno, um humilde, maçanico, servo do Bem, “uma pessoa que não tem preocupações materiais”, um romeiro, um apóstolo do Bem e da Virtude — apequenando-se, agiganta-se, daí que Chicão se revele agora como São Chiquinho, o redimido, o novel convertido da esquerda indígena, o homem que “todos os dias acorda com um brilhozinho nos olhos” para “amar amar” e “odiar odiar”.

Aguardemos, então, com penhorada atenção, os próximos capítulos de tão altíssima conversão. Afinal, com tanta redenção, com tamanha sensação, quem sabe se, em nome do bem, da verdade e do direito a todos viverem a vida que querem viver — e por mais umas semanas de atenção mediática —, não assistiremos ainda no futuro a um aprofundamento da transição de Francisco Rodrigues do Santos: hoje de Chicão para São Chiquinho, quem sabe um dia de São Chiquinho para Santa Chiquita: aí, o heroísmo e a transformação seriam, finalmente, totais, o círculo estaria realizado, a abnegação totalizada, a transformação completa — o onanista Alfa e Omega de si próprio.

Quem sabe? Na verdade, ninguém, porque, para o psicólogo empático que quer verdadeiramente compreender como o “biológico influencia a pessoa que somos” e que assume que quando “tem aquilo que quer precisa de passar para outra”, só Deus sabe até onde a transformação indómita de um ser necessariamente sem limites poderá levar. Acompanhemos, pois, com devoção, a aventura daquele que, acima de tudo, incluindo si próprio, apenas consegue pensar, e sonhar, com o bem dos outros. Graças a Deus por nos ter enviado São Chiquinho — somos uns felizardos.

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