São Chiquinho, a pessoa que
A redenção do pecador é um tema recorrente na história da velhinha moral Cristã, incluindo nos tempos modernos. Desde Norma McCorvey, a famosa “Jane Roe” em Roe Vs. Wade, passando por C. S. Lewis e, claro está, a notável conversão de Edith Stein, discípula ateia de Husserl tornada Carmelita, é larga a estrada da conversão. Aliás, tanto assim é que os alicerces da própria Igreja se fazem de famosos pecadores convertidos ao Dogma e à Verdade: Santo Agostinho, claro, que “tomou e leu” a Bíblia para se tornar num dos pilares do pensamento Cristão Ocidental, tal como, sempre presente, São Paulo, o perseguidor Saulo que, na estrada de Damasco, se transformou no maior apóstolo Cristão, o “Apóstolo dos Gentios”, levando a mensagem de Cristo para lá das fronteiras judaicas, para todo o mundo Romano.
É, portanto, uma longa tradição, a da conversão, naturalmente aproveitada pelo Novo Dogma mediático-moralista dos nossos dias. E um privilégio o qual nós, gente de pouca fé, apenas pode agradecer pela oportunidade de testemunhar, em particular de modo tão directo, sem filtros, como foi no caso de Francisco Rodrigues dos Santos, o célebre Chicão, na sua amena conversa com Mafalda Anjos — atentai no nome, senhores, é uma pista.
Salvé! Salvé! Que alegria quando o milagre da redenção acontece, ainda para mais em tempos tão negros, macambúzios, pejados de corações vis e torpes, fascizóides, enegrecidos pela concupiscente obsessão pelo poder, fama e o sempre egoísta interesse particular. Quão raro é hoje, em tempos de apagado e desonrado atomismo social, vermos um dos nossos, um daqueles pecadores como nós, capaz de rasgar os atilhos da obscuridão conservadora, abandonar a sua identidade retrógrada e, descalço, penitente, de cabeça baixa, caminhar rumo à salvação mediática!
Raro, é verdade, mas, talvez por essa razão, também experiência única, marcante, valiosa, que pelo exemplo e a abnegação apenas pode iluminar-nos a alma quando tão puros espíritos morais, anjos plenos de candura democrática, se redimem e, em plenos pulmões, anunciam ao mundo a sua salvação. Onde antes, cego, caído por terra, às portas de Damasco, São Paulo perguntou “Que farei, Senhor?”, hoje Francisco Rodrigues dos Santos, coveiro do CDS-PP, o Chicão da direita ultra-conservadora, exultante, anuncia a quem o queira ouvir que “já não se considera uma pessoa de direita” — e não se enganem, em nada o talento, a virtude e a convicção do segundo ficará atrás da do primeiro.
Perante tais palavras, as de Chicão, não tocou o hino, o da Internacional, mas devia. Não obstante, cumprindo o seu dever, a interlocutora, uma das jornalistas mais aliviadas de esforço mental da manada mediática portuguesa, rapidamente abriu os braços e, feliz, maternal, acolheu a anteriormente tresmalhada ovelha no seu colo aconchegante, regaço quente e farto, palpitante, oferecendo as boas-vindas àquele que, renegando velhas convicções, ali foi ungido e autorizado a partilhar da nova luz, a esperança balida em uníssono pelo rebanho da verdade moral, racional, intelectual, universal. Ah, o fino sabor da concórdia social, útero inconsciente próprio do Ouroborus que apenas o Todo aconchega! Ah, doce o mel sorvido avidamente por aquele, Chicão, que, resfolegando a cabeça pesada pelo pecado anterior no abraço oracular feminino, escuta agora com devotado alívio aquilo que aquela lhe sopra, em surdina, com hálito quente e húmido, às orelhas: “tu és tão boa pessoa, agora sim, és um dos nossos”.
Depois, desfeito o abraço ritual, ajoelhado perante o peso enorme da virtude que se prepara para carregar nos seus frágeis ombros, prosseguiu a conversa como que no sagrado recolhimento por trás do ralete — e nós a escutá-la! —, sempre prontos os intervenientes para o mútuo elogio, a concórdia moral, a........
