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Ainda a definição política deste indivíduo

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20.10.2026

Fui parar ao concelho do Seixal, na Margem Sul do Tejo, no ano da graça de 1989. Até então vivíamos no Alto dos Gaios, no Estoril, onde o meu pai pagava uma renda de casa de 20 contos, ganhando 40, com uma mãe desempregada e eu, um bebé carente de fraldas, leite adaptado, pediatras e tudo o que se sabe. Quatro anos depois de eu ter nascido, e nestas circunstâncias, por entre dinheiro poupado e empréstimos pessoais e bancários, lá se conseguiu comprar uma casa naquele lugar que ficava, na época, a uma distância insuportável de Lisboa. Com excepção para umas colónias de férias dos empregos parentais, não se faziam férias fora da “terra”, entre casas de avós, tios e primos. Durante muitos anos, as únicas férias que o meu pai tirava serviam para a colheita da azeitona. Não se comia fora, não tínhamos carro, havia direito a um par de ténis novos por ano, usados até estarem rotos, não havia festinhas de aniversário. Durante muitos anos, os melhores presentes que tinha no Natal foram oferecidos pelas entidades empregadoras lá de casa. Fomos dos últimos a ter telefone fixo. E quando entrei na escola primária, em 1991, por entre cantorias frequentes do Grândola Vila Morena nas festas de fim dos períodos escolares, abriu-se um mar de oportunidades: “Se estudares, podes ter uma vida melhor do que a minha” tornou-se um mantra que, por entre fases melhores e piores, lá acabei por respeitar. Compreendi muito cedo, mesmo que isso só se tivesse tornado claro largos anos depois, que o esforço dependia de mim e não dos outros, que nada vem sem esforço e sacrifício, que não devia ficar a dever nada a ninguém e, ao mesmo tempo, que muita gente nos ajudava e ajudávamos muita gente, e ainda que ninguém me devia nada e muito menos que devia invejar o que os outros tinham a mais do que eu, pelo que, quando cheguei ao ensino secundário, aos 13 anos, e ouvi uma professora dizer-me que, perante um cenário em que eu e outros como eu éramos assaltados frequentemente, a minha obrigação era aceitar o roubo que me era feito porque o privilégio de eu ter algo que outros não tinham legitimava o facto de eu ficar sem as minhas coisas, eu podia........

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