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Um abril de meia-idade

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No mês que agora termina, aquele que levanta mais propaganda política no ano, importa refletir sobre os tempos, os efeitos e os resultados de abril. Para alguns é incontestável, para muitos é duvidoso, e para outros neutralidade pura, mas, no entanto, e para infelicidade ou felicidade das hostes, é digno o exercício de procura pelos traços e sinais de abril; um abril de meia-idade que ainda tem pais vivos, filhos crescidos e netos a crescer – veremos se ainda assistirá ao nascer dos bisnetos.

A 25 nasceu abril, no ano de 1974: gritos de liberdade dados, sonhos trazidos para as ruas, esperanças sentidas no peito que ardia com o fervor do novo, de algo novo, por muitos inimaginável. Dois anos depois, o bebé abril deu lugar à aprovação da Constituição da República Portuguesa, o texto, isto é, a lei que impediria “o retrocesso”, a lei que impediria a morte desta pequena criança em formação. Anos volvidos, abril tem já mais de 50 anos, e do que a sua vida se conta são muitas as alegrias e muitas as tristezas, muitos os sabores e muitos os dissabores, mas hoje, talvez, uma grande angústia e desmoralização, quanto aos seus feitos. Veja-se que um abril que se queria dar com todos, esquerda e direita, foi envenenado pelas ladainhas de uns para escorraçar os outros, logo nos inícios da sua vida. E daí, os tão queridos amigos, aqueles típicos interesseiros e rudes, formataram a personalidade de abril, o qual tomou como inimigos aqueles que também queriam contribuir para o seu bem-estar e memória para a sua família futura.

A liberdade que ao início era para todos, hoje aparenta ter-se tornado apenas para alguns – “os protetores de abril”, como se este precisa-se de proteção: um abril audaz que rompeu com um regime, um abril que se constituiu, que lutou, que uniu, que honrou em muita a sua promessa – e esses feitos não lhe podem ser tirados. Mas fê-lo com a sua força, com a força que o povo lhe deu, porque foi o povo que cuidou de abril e o ajudou a crescer, e nunca meia-dúzia de amigos de ocasião que só se lembravam de abril, como hoje, quando dele queriam alguma coisa. Muitas e muitas vezes, abril foi traído usando-se indevidamente a sua matriz, o seu nome, a sua marca. Muitas e muitas vezes, deturparam-se realidades para provocar raiva e contestação e chamou-se abril para responder, quando este já tinha a sua resposta existencial, mas viu-a falsamente interpretada, abusada, e tiranicamente rotulada como meio para se chegar a fins que nunca foram os fins que lhe deram origem. Este abril de meia-idade é escravo de opiniões incorretas, de teses infundadas, de falsas leituras feitas por pessoas que só pensam neste ser para chegarem ao seu desígnio abjeto, condenando os pais, os filhos, os netos e, futuramente, os bisnetos de abril.

Abril, não agradando a todos, a todos deve servir. Foi com este propósito que nasceu e cresceu. E o serviço que dele é requerido, ainda que já com mais de 50 anos, é um serviço digno à sua família, o povo português. A sua ação não deve ser pautada pelo sectarismo, mas pela justiça – e a justiça da liberdade não muda conforme a cor política, nem tão pouco conforme a opinião. A justiça da liberdade deve ser imutável para com todos, sem fazer aceção de pessoas.

Lembremo-nos daquelas singelas palavras com que abre a distante, mas presente, canção, que muitos certamente recordam: “eles não sabem que o sonho é uma constante da vida”. Verdadeiramente não sabem, que o sonho é uma constante, que o sonho de todos nós, embora diferente, pretende melhorar Portugal. Um sonho resultado da liberdade de pensar que não pretende restaurar um pesadelo. O que se almeja é a compreensão e, acima de tudo, o entendimento, de que abril abriu o caminho para que se pudesse sonhar livremente sobre um país melhor, mas que só o hoje pode permitir a concretização desse sonho, porque um sonho sem ação é, sim, um pesadelo.

Abril tem um significado diferente para todos nós, mas não deixa de ser abril – merecedor de respeito, sempre; mas respeito não é idolatria. Abril deu-nos muito, mas agora cabe-nos viver e fazer mais não apenas com abril, mas por abril e, acima de tudo, para além de abril. A pior mágoa que este pode um dia sentir é saber que nada fizemos com o que nos deu, porque tivemos medo de o perder. O medo é o primeiro passo para se perder algo, não queiramos, por isso, ser medrosos.  Vivamos com a liberdade que nos deu o jovem abril, mas a pensar e a trabalhar em prol do envelhecido abril do Portugal de amanhã. Abril não se torna centenário com base em conformismo e estagnação, mas com vitalidade, ação e coragem. É o que nos pede este abril de meia-idade, este abril já quase velho, e há que responder a esse pedido.

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