A imprevisibilidade da guerra pode afastar a China de Taiwan
Durante os primeiros meses da invasão russa da Ucrânia, uma das interpretações mais difundidas nos círculos de política internacional era a de que o conflito poderia acelerar os planos chineses para Taiwan. A lógica parecia simples, se a Rússia conseguisse impor rapidamente a sua vontade sobre um vizinho mais fraco, demonstrando a incapacidade do Ocidente para responder de forma eficaz, Pequim poderia sentir-se encorajada a avançar mais cedo do que o esperado sobre a ilha, esperando a passividade dos EUA/Ocidente. A guerra na Ucrânia era frequentemente apresentada como um ensaio geral para uma futura crise no Estreito de Taiwan. Quatro anos depois, a realidade apresenta-se bastante mais complexa e, em muitos aspetos, diametralmente oposta às previsões iniciais.
A Rússia não alcançou uma vitória rápida. A Ucrânia não colapsou. O Estado ucraniano manteve-se funcional, as suas forças armadas adaptaram-se às exigências de uma guerra moderna e a sociedade demonstrou uma capacidade de resistência que poucos antecipavam em fevereiro de 2022. Mais importante ainda, o conflito expôs limitações militares, económicas e políticas de uma potência que muitos julgavam ser significativamente superiores àquelas que efetivamente possuía.
Paralelamente, os acontecimentos mais recentes no Médio Oriente reforçam uma tendência semelhante. Independentemente da avaliação que se faça dos resultados militares alcançados pelos Estados Unidos ou por Israel, o caso iraniano demonstra igualmente que Estados considerados mais frágeis ou vulneráveis podem conservar uma capacidade significativa de resistência, adaptação e sobrevivência perante pressões externas muito superiores. A assimetria de poder continua a existir, mas a sua tradução automática em resultados políticos está longe de ser garantida. Este fenómeno merece atenção, porque pode produzir efeitos indiretos sobre uma das questões geopolíticas mais importantes do século XXI, Taiwan.
Durante décadas, grande parte da literatura estratégica assentou na ideia de que a superioridade material constituía o principal fator explicativo dos resultados dos........
