IA: o fim da Medicina tal como a conhecemos?
O mercado de inteligência artificial (IA) no domínio da saúde foi avaliado em cerca de 39 mil milhões de dólares americanos no ano de 2025, projetando-se que atinja os 56 mil milhões em 2026, e cerca de 1.033 mil milhões em 2034. [1]
Paralelamente, tem-se observado um crescimento exponencial da utilização de ferramentas de IA no âmbito da saúde, de tal forma que 74% dos Estados-membros da União Europeia já a utilizam para apoio ao diagnóstico. Ao mesmo tempo, 39% dos cidadãos europeus manifestam abertura para consultar sistemas de IA em detrimento de um médico. [2,3]
Estaremos, deste modo, perante uma mudança de paradigma? Poderão as consultas médicas convencionais e a relação médico-doente vir a ser substituídas, futuramente, por meras interações com ferramentas de IA?
Para responder a estas perguntas, importa, primeiro que tudo, compreender o impacto que estas tecnologias têm ou podem vir a ter na Medicina. Para além do diagnóstico precoce de múltiplas patologias, de uma maior personalização do tratamento, e de uma otimização do processo de desenvolvimento de medicamentos, a IA assume-se como uma ferramenta estratégica para mitigar desafios estruturais dos sistemas de saúde – possibilitando, por exemplo, uma alocação de recursos mais eficiente, e a automatização de tarefas administrativas e do preenchimento de registos clínicos. Esta última surge como uma oportunidade de libertar os médicos não só da carga burocrática, como também da necessidade constante de olhar para o ecrã e fazer registos durante as consultas, dando-lhes mais tempo para que possam, efetivamente, escutar os doentes. [4]
Dito isto, é importante frisar que a utilização de IA no setor da saúde acarreta riscos múltiplos, sendo um dos mais prementes a vulnerabilidade a vieses; isto é, falhas que ocorrem devido ao algoritmo ter aprendido apenas com uma parte da realidade, não captando a diversidade do mundo real. Por exemplo, uma avaliação a algoritmos para deteção de cancro da pele revelou que estes, por terem sido treinados com bases de dados compostas predominantemente por doentes caucasianos, apresentavam uma sensibilidade três vezes menor em doentes de pele escura, comprometendo o diagnóstico e tratamento atempados deste grupo de doentes. A isto acresce a possibilidade de ocorrência de “alucinações”, ou seja, de a IA providenciar conteúdo falso com o mesmo tom de autoridade com que apresenta informação factualmente correta, o que assume particular gravidade no contexto da saúde, dado que pode colocar em causa o bem-estar e a segurança dos doentes. [5,6]
A par destes riscos, multiplicam-se os desafios por resolver. Se, por um lado, o processamento de volumes massivos de informação clínica expõe a necessidade urgente de elevar os padrões de proteção da privacidade e da integridade dos dados, por outro, subsiste a incerteza sobre a responsabilidade ético-legal em caso de falha dos sistemas de IA: será tal responsabilidade do médico que utilizou o sistema, da empresa que o desenvolveu, ou da instituição que o adquiriu? [5]
Diante deste cenário, torna-se claro que estamos perante uma mudança de paradigma. A Medicina não está apenas em vias de mudar; está já a passar por uma transformação profunda e incontornável. Ainda assim, não creio que assistiremos a uma substituição total do clínico pela máquina. A IA veio, efetivamente, para ficar, mas deve ser encarada como um complemento, e não como um substituto. Até porque, mesmo evoluindo a tecnologia a um ritmo alucinante, a IA ainda está distante de alcançar aquela que é, a meu ver, uma das capacidades mais importantes de um médico: a de empatizar com o doente e interpretar nuances tanto verbais como não verbais, compreendendo-o de uma forma holística. Efetivamente, aquilo que um doente transmite numa consulta médica não se esgota nas palavras; inclui também o que “diz” através do tom de voz, da postura e das expressões faciais. E mesmo que, futuramente, a IA venha a superar o ser humano na identificação destes sinais, muito provavelmente, continuará a faltar-lhe a capacidade de sentir o seu significado mais profundo e de oferecer o conforto que só a experiência humana partilhada consegue proporcionar.
Desta forma, a integração da IA na Medicina exige que se colmatem lacunas jurídicas, se promova a literacia digital de todos os intervenientes, e se aprofunde a investigação no sentido de tornar a IA mais equitativa. É igualmente fundamental o desenho de políticas públicas que assegurem uma evolução tecnológica capaz de beneficiar a sociedade como um todo, exigindo que, antes de qualquer implementação, estes sistemas sejam validados com amostras representativas e diversificadas da população, de modo a suprir as necessidades específicas dos diferentes grupos populacionais. Caso contrário, corremos o risco de construir uma Medicina tecnologicamente avançada, mas que falha no seu desígnio de promover a saúde de forma universal sem acentuar desigualdades.
O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.
Receba um alerta sempre que Miguel Anjos publique um novo artigo.
