Camões e os 900 anos de Portugal, a epopeia
Há figuras que, ultrapassando o seu tempo, acabam por se confundir com o próprio destino coletivo de um povo. Luís de Camões é, entre nós, a mais evidente dessas figuras, já que, ao longo dos 900 anos da nossa história, poucos símbolos se revelaram tão persistentes e tão agregadores.
A construção da identidade portuguesa
De Camões se costuma ouvir dizer que é o maior poeta de língua portuguesa e um nome grande da tradição literária ocidental. A fórmula tornou-se quase automática, repetida em manuais, discursos e cerimónias. Mas talvez valha a pena interrogá-la quando evocamos os 900 anos de Portugal. Celebrar Camões, associando-o aos 900 anos de existência do nosso país é um ato que se impõe como natural e amplamente consensual, mas tal consenso e naturalidade não dispensam a análise dos fundamentos que os sustentam.
Quando Portugal se pensa a si mesmo, é difícil não reconhecer que a construção da identidade portuguesa — desde o esforço fundacional do século XII até à afirmação contemporânea no espaço europeu e atlântico — encontrou na obra de Camões uma espécie de espelho ampliado. Nele se projetaram as nossas grandezas e as nossas fragilidades, o ímpeto de partir e a melancolia de regressar, o sentido trágico da história e a consciência crítica face ao poder.
A construção da imagem de Camões como poeta-símbolo da identidade nacional pode recuar praticamente até ao período da monarquia dual, altura em que Os Lusíadas foram usados como uma espécie de manifesto de resistência contra a união dinástica. A partir do século XIX, essa imagem viu-se consolidada, sobretudo graças à ação dos organizadores das comemorações do tricentenário da morte do poeta, em 1880, e muito particularmente de Teófilo Braga e de outros defensores da causa republicana que iniciaram o processo de sacralização da figura de Camões: sendo anticlerical, mas conhecendo a forte tradição religiosa do povo português, a República substituiu os santos da igreja por santos cívicos e, neste novo panteão, Camões pontificou. Desde então, as referências ao príncipe dos poetas estão por toda a parte, manifestando-se em estátuas em praças, na toponímia, na designação de edifícios públicos, em memoriais e em referências constantes nas cerimónias e nos discursos oficiais. É notável esta presença contínua que determina que, até aos dias de hoje, não tenha havido nenhum século em que se possa falar de um “eclipse camoniano”, um dos raros autores cuja presença nos programas da escolaridade obrigatória nunca sucumbiu face às tentações reducionistas e atualizadoras que, volta e meia, acometem os decisores nacionais de política educativa.
Mas a persistência simbólica não explica tudo. O que pode, então, justificar este poder de fascinação exercido pela pessoa e pela obra de Camões?
Fernão Rodrigues Lopo Soropita, fez-lhe o encómio, dizendo que “[…] juntamente vemos nele natureza prontíssima para declarar seus pensamentos, acompanhada de ua facilidade natural […] que parece que nele só ajuntou a arte e a natureza tudo o que convinha para subir ao mais alto da Poesia.” (Rimas, 1595). Isabel Rio Novo atualiza-lhe o retrato, apelando à empatia do leitor contemporâneo: “[…] se há algum aspeto em que a personalidade de Luís de Camões se confunde com a de qualquer outro indivíduo é o seu carácter contraditório. O poeta que também era soldado. O homem pobre e humilhado que se sentia em condições de doutrinar os grandes. O orgulho intelectual do honesto estudo coexistindo com a fanfarronice do Trinca-Fortes. O homem capaz de desembainhar a espada numa briga de três contra um e igualmente capaz de implorar pela comutação da pena de uma mulher desgraçada.” (Fortuna, Caso, Tempo e Sorte, 2024).
Será precisamente esta riqueza de facetas, associada à dimensão global da sua produção literária, que contribui para a excecionalidade de Camões enquanto figura histórica e literária. A sua vida, marcada por aventuras em várias partes do mundo e por desafios constantes, foi traduzida numa obra que dialoga com questões humanas fundamentais, desde a glória e a tragédia ao amor e à justiça. A sua capacidade de transitar entre diferentes modos de ser e de agir — soldado no Norte de África e na Índia, filósofo em momentos de introspeção, defensor dos desvalidos em episódios de compaixão — confere-lhe uma singularidade rara. É essa multiplicidade, aliada à profundidade estética e intelectual da sua obra, que o transforma num símbolo cívico, cultural e literário de alcance global.
Mas talvez o sinal mais eloquente da sua atualidade esteja fora das nossas fronteiras. Camões recriou a língua portuguesa a partir do latim, enriquecendo-a com a introdução de novas palavras e dotando-a de uma enorme flexibilidade ao ensaiar novas possibilidades de combinações sintáticas que deram ao idioma maior variedade e permitiram alargar o seu potencial poético. A língua que ajudou a moldar é hoje oficial em nove países, unidos na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Do Brasil a Timor-Leste, de Angola a Moçambique, de Cabo Verde à Guiné-Bissau e a São Tomé e Príncipe, sem esquecer Macau e a Guiné Equatorial, a língua portuguesa deixou de ser apenas património nacional para se tornar espaço partilhado de soberanias distintas. É uma língua pluricêntrica, habitada por múltiplas memórias e futuros diversos.
Camões foi também o único poeta do seu tempo a aventurar-se em viagens de longo curso, transformando a sua experiência pessoal na obra de maior relevo da literatura portuguesa. Por isso se sentia superior aos modelos clássicos que imitava: Homero e Virgílio não contactaram de forma direta com as realidades referidas nos seus poemas. Camões, pelo contrário, sabia por experiência própria o que era descer a costa ocidental de África, dobrar o Cabo das Tormentas, atravessar o oceano Índico; sabia o que era um tufão, sabia o que era naufragar e quase morrer. Em Os Lusíadas, surgem pormenores da vida quotidiana durante as longas viagens marítimas, incluindo o escorbuto que dizimava marinheiros. Ao contrário dos modelos da Antiguidade, preocupava-se com os vulgares marinheiros e soldados. E desta vantagem específica teve consciência o próprio poeta, que cantava “Se os antigos filósofos, que andaram / Tantas terras por ver segredos delas, / As maravilhas que eu passei passaram, / A tão diversos ventos dando velas, / Que grandes escrituras que deixaram!” (Lusíadas, Canto V).
Recentemente, Martin Puchner chamou-lhe o “marinheiro português que escreveu uma epopeia global” (Cultura, 2023), sublinhando que hoje está a ser redescoberto como testemunha da primeira era da globalização. Essa dimensão global é outro traço marcante da sua atualidade. Todavia, se no século XVI o mar foi o vetor da primeira globalização, hoje o desafio é outro: transformar essa herança num modelo de hospitalidade mútua, respeito intercultural e multilateralismo político, social e económico. O legado camoniano pode ser lido à luz dessa exigência. Não como exaltação ingénua do império, mas como convite à consciência crítica de um país que, tendo conhecido a centralidade e a periferia, sabe que o seu lugar no concerto das nações depende da capacidade de dialogar, de cooperar e de reconhecer a dignidade do outro. Portugal, aos 900 anos, é simultaneamente um dos Estados mais antigos da Europa e uma comunidade aberta ao mundo. A sua pertença à União Europeia, a sua inserção atlântica, a sua ligação histórica a África, à América do Sul e à Ásia, conferem-lhe uma posição singular. Nessa singularidade, a língua é um ativo estratégico — cultural, diplomático, económico. E nessa língua ecoa, ainda, a cadência de Camões.
Largo horizonte com Camões
Celebrar Camões quando se assinalam os 900 anos da existência de Portugal não é, neste contexto, um exercício de nostalgia. É um ato de responsabilidade histórica. É reconhecer que a identidade não é um dado imóvel, mas uma construção contínua. Enquanto existir uma comunidade que se exprima na língua que Camões ajudou a moldar, será inevitável a convergência em torno deste grande poeta universal. Camões é o mais indomável e o mais clássico, o mais fugidio e o mais omnipresente dos poetas de língua portuguesa, o que dá a medida da sua compreensão do mundo e testemunha a sua genialidade. Ele não é apenas uma figura do passado; é uma presença viva e dinâmica, capaz de dialogar com as questões do presente e de cativar novos leitores. A sua obra, profundamente enraizada na experiência humana, transcende fronteiras temporais e geográficas, reafirmando-se como pilar indispensável da memória cultural portuguesa e como ponte para o entendimento universal.
Se Portugal, aos 900 anos, procura o seu lugar no mundo, talvez encontre em Camões não uma resposta pronta, mas uma hipótese: a consciência de que identidade e abertura não são termos opostos. A epopeia celebrou a ousadia de dobrar cabos e atravessar oceanos; a nossa tarefa contemporânea talvez resida na capacidade de construir pontes — linguísticas, culturais, políticas — como resposta a uma nova ordem mundial cada vez mais fragmentada. E, nesse esforço, a herança de Camões não é apenas literária. É uma proposta de horizonte coletivo.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]
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