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 As guerras e as emoções

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25.03.2025

No tempo de liceu, o meu manual de leitura das aulas de português era composto de extratos de vários livros de autores nacionais, dos quais arquivei na memória um que me tem servido de fonte de inspiração ao longo da vida. Tratava-se de um texto de Cartas Familiares e Bilhetes de Paris, de Eça de Queirós, num cenário de “soirée” campestre, no norte do país, no qual várias pessoas passavam um confortável serão, ao redor de uma lareira crepitante. Na languidez do momento, uma senhora lia o jornal, enquanto os restantes ouvintes comentavam os acontecimentos do mundo, descritos a tinta preta. Os horrores eram mais do que muitos, matanças, terramotos, inundações, guerras, pestes e um sem fim de tragédias que infligiam outros humanos. Todos suspiravam pelos desaventurados, do fundo dos sofás que amorteciam as emoções sobre eventos que, porque ocorridos tão longinquamente, mais um sonho pareciam. De repente, como se de uma bomba se tratasse, a leitora dá um grito e com a respiração suspensa, relata que a Luisinha, vizinha das redondezas, tinha partido um pé. Alvoroço, emoção, queixume, a sala transforma-se num hospital de campanha onde cada um está pronto para socorrer e compadecer-se da jovem que terá o pé imobilizado durante umas escassas semanas.

A Luisinha comoveu toda a gente naquela sala, as atenções eram todas para ela, tão abalados que ficaram, mas os milhões de mortos, estropiados, existente no mundo em conflito, já se tinham esfumado da memória coletiva. Há, de facto, uma distância abissal entre a relevância efetiva das catástrofes naturais e humanas e o desencadear das nossas emoções face às mesmas. Sofremos realmente com o que está próximo, com o que é imediatamente visível, com o que nos entra pelos sentidos externos, onde toda a realidade externa começa. Contrariamente, os factos longínquos,........

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