Entre o altar, a espada e o alarido no hemiciclo
“Porque nós temos justa querela e razão para defender nossa terra, crendo que Deus é justo juiz, cheguemos a Ele que nos ajude, e se assim fizermos, tendo firme esperança em Deus, poucos de nós vencerão muitos.” – D. Nuno Álvares Pereira
À primeira vista, os mundos da Igreja e das Forças Armadas parecem estar em extremos opostos. Num, prega-se a paz, a tolerância e o amor ao próximo, no outro, preparam-se os homens para o uso da força e para a guerra. Contudo, quando olhamos com atenção, quando observamos para lá do que se vê, o ADN destas duas instituições milenares partilha uma semelhança inegável. Ambas assentam os seus alicerces em pilares que o mundo moderno insiste (ou parece insistir) em desvalorizar: a hierarquia, a disciplina, a ordem e o ritual.
No seu cerne, as hierarquias militares e eclesiásticas espelham-se de forma fascinante. Numa, a rigorosa cadeia de comando vai do recruta ao general, na outra, estende-se do seminarista ao bispo e ao Papa. Ambas exigem obediência à linha hierárquica, não por subserviência cega, mas por um entendimento profundo de que a ordem vertical é o que impede o caos. Há um respeito intrínseco pela patente e pelo sacramento, em que as promoções e as ordenações marcam etapas de maior sacrifício e de maior responsabilidade perante o colectivo, não sendo meros degraus para alimentar a vaidade pessoal. Tanto o militar como o religioso abdicam do seu “eu” em prol de uma missão maior, a salvação do País, e a salvação da Alma, respectivamente.
Infelizmente, se quisermos procurar a antítese absoluta desta nobreza de espírito e de elevação institucional, basta ligar a televisão na ARTV, vulgo canal Parlamento.
O espetáculo a que os portugueses assistem, quase constantemente, nos debates parlamentares no Palácio de São Bento tornou-se uma caricatura deprimente. Sabemos que a vida das instituições políticas é, no papel, desenhada para ser rigorosa e altamente protocolar. Contudo, mal as câmaras se ligam, o verniz estala com demasiada facilidade. O debate cívico e ponderado dá lugar a um ruidoso ruído de fundo.
É uma autêntica boçalidade a forma como os deputados se mimam entre si. Se transpuséssemos as suas atitudes parlamentares para um banquete, imaginá-los-íamos à mesa a comerem com as mãos, emitindo grunhidos ensurdecedores enquanto mastigam de boca aberta, atirando as sobras uns aos outros. E, no entanto, com a maior das hipocrisias, armam-se em virgens ofendidas e exibem uma suscetibilidade frágil quando são eles próprios os alvos dos insultos ou dos vulgos apartes que tanto gostam de lançar aos adversários. Como dita a sabedoria popular, “podes tirar a pessoa da terrinha, mas não consegues tirar a terrinha da pessoa”. No nosso Parlamento, a premissa foi tristemente actualizada, podemos tirar o político da arruaça, mas não conseguimos tirar a arruaça de dentro do político. Um povo que não vê nem respeito, nem educação no espaço principal onde é representado, é um povo que rapidamente perde a esperança nos seus líderes e, por arrasto, na própria democracia.
Vemos, sessão após sessão, o Presidente da Assembleia da República a ter de interromper os trabalhos, apelando à urbanidade, quase com a mesma eficácia com que um professor substituto tenta calar uma turma indisciplinada do 7.º ano. Esquecem-se estes senhores que o relógio não para. O tempo ali gasto é dinheiro dos contribuintes e dos eleitores que trabalham diariamente para sustentar o Estado. Desperdiçar esse tempo em “peixeiradas” de bancada é não só uma falha de carácter, mas um desrespeito tremendo por quem lhes paga o salário. Devemos, e temos a obrigação de exigir muito mais a quem nos representa.
Este mau exemplo constante, transmitido em directo para todo o país, é o atestado de uma péssima educação formativa. É o reflexo cristalino de uma classe a quem faltou muita coisa: a educação de base em casa para saber ouvir sem interromper, a passagem pela tropa para aprenderem o que é o respeito pela autoridade e a disciplina do grupo, e a ida à missa para compreenderem o valor do silêncio, da compostura e do respeito pelo próximo.
Sem farda, sem batina e sem maneiras, resta-lhes o ego. Parecem crer que lhes basta rodear-se de exércitos de assessores, chefes de gabinete e consultores de comunicação para se sentirem importantes e validarem o seu peso político. É um erro crasso de perspectiva. A verdadeira importância de um político não está no aparato que o rodeia, mas sim na humildade e na nobreza com que abraça um cargo de representatividade.
Quão distante está esta elite ruidosa daqueles que efectivamente construíram a nação. Pensemos no exemplo máximo que une as duas instituições referidas no início do meu texto, D. Nuno Álvares Pereira.
O Santo Condestável é a síntese perfeita da espada e da cruz. Nos campos de batalha de Atoleiros e Aljubarrota, foi o estratega militar formidável, impondo uma disciplina férrea às suas hostes e garantindo a independência de Portugal com inegável dureza e sentido de Estado. Mas, cumprido o seu dever terreno, o brilhante militar não se rodeou de cortesãos nem exigiu palácios. Despiu a armadura, abdicou das glórias do mundo e vestiu o hábito. Fez-se Frei Nuno de Santa Maria, no Convento do Carmo, entregando-se ao silêncio, à oração e ao serviço humilde aos mais pobres.
D. Nuno soube quando empunhar a espada para defender o país e quando dobrar os joelhos perante algo maior do que ele. Tinha o rigor do soldado e a mansidão do santo. Os nossos parlamentares, por seu turno, parecem apenas saber exercitar as cordas vocais, incapazes de lutar por algo que não seja o seu tempo de antena, e terrivelmente incapazes de se curvarem perante o decoro e a humildade que o cargo lhes exige.
Talvez o país estivesse muito melhor servido se, em vez de esbanjarem o dinheiro dos impostos em interrupções estéreis e egos insuflados, os nossos representantes passassem menos tempo a ouvir a própria voz e um pouco mais a contemplar o exemplo silencioso, focado e devoto do Condestável.
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