A Energia Nuclear que não queremos produzir
Na tarde de 28 de abril de 2025, a Península Ibérica ficou mergulhada na escuridão. Não se tratou de uma falha isolada, mas sim de um aviso. Durante várias horas, Portugal e Espanha ficaram sem eletricidade, dado que o sistema energético falhou precisamente quando não podia falhar. O apagão custou 1,3 mil milhões de euros a Espanha. Custou confiança a toda a Europa. Além disso, o apagão veio revelar uma verdade incómoda que Portugal prefere ignorar: precisamos de fontes de energia estáveis e constantes, que não estão a ser construídas em Portugal, mas que todas as nações desenvolvidas estão a construir.
A questão é clara: quando não há vento nem sol, quem alimenta a rede? Na Península Ibérica, a resposta tem sido uma combinação de centrais a carvão e a gás natural, bem como centrais nucleares espanholas. Portugal consome essa eletricidade como se fosse inesgotável. Não é. E aqui reside o paradoxo que define o nosso presente energético.
Os Búfalos de Espanha
Imagine a América do Norte pré-colombiana. Tal como os povos neolíticos europeus domesticavam bois, havia civilizações indígenas que domesticavam búfalos. Construíam currais. Desenvolveram técnicas de pastoreio. Criaram sistemas sofisticados de criação e de cuidados dos búfalos. Outras civilizações, contudo, não investiram neste ecossistema. Esperavam que alguns búfalos fugissem dos rebanhos vizinhos para se alimentarem. Em alternativa, recebiam búfalos em troca de bens valiosos, numa relação comercial assimétrica. Não precisavam de construir currais nem de compreender o pastoreio, desde que os vizinhos mantivessem as manadas.
Durante séculos, isso funcionou. Os vizinhos eram fortes. As suas manadas eram jovens e abundantes. Os campos permaneciam férteis. As trocas eram justas.
Porém, agora, esses vizinhos estão a envelhecer. Os seus búfalos têm mais de meio século de vida. Toda a infraestrutura que sustentava as manadas começa a deteriorar-se. Alguns vizinhos já não conseguem alimentar as suas próprias populações, quanto mais oferecer búfalos aos outros. As civilizações que nunca domaram búfalos despertam para uma realidade desconfortável: sempre estiveram dependentes de um ecossistema que nunca compreenderam nem procuraram entender.
Isto é Portugal e a energia........
