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Jesus não pertence à esquerda moralmente dominante

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01.03.2026

Circula por aí um texto que procura estabelecer uma oposição moral entre a fé cristã e o voto no CHEGA, sugerindo que quem frequenta igrejas e vota no CHEGA, ou reconhece qualidades políticas em André Ventura ou no discurso incisivo de Rita Matias, estaria a trair o significado profundo da cruz de Cristo.

É uma narrativa emocionalmente eficaz, mas intelectualmente frágil e teologicamente muito discutível.

A imagem de Jesus Cristo é convocada como instrumento político, não para iluminar consciências, mas para condicionar votos. A cruz surge como arma retórica contra adversários ideológicos. Isso, sim, é instrumentalizar Cristo.

Cristo não foi um revolucionário progressista no sentido moderno, nem um precursor das agendas que hoje se apresentam como “humanistas”.

Jesus não relativizou a vida humana, não dissolveu a família, não negou a diferença sexual, não legitimou a eliminação dos mais frágeis em nome de uma falsa compaixão. Pelo contrário: afirmou a dignidade da vida desde o princípio, chamou o homem à responsabilidade moral e reconheceu a família como célula fundamental da comunidade.

É por isso que a tentativa de apresentar a vitória política de António José Seguro como compatível com o cristianismo representa uma inversão moral profunda.

Quem defende o aborto como “direito”, a eutanásia como “libertação”, a desconstrução da família como “progresso” e a negação da antropologia cristã como “emancipação” não está em linha de continuidade com a mensagem de Cristo e dos seus discípulos; está precisamente no sentido inverso diria mais: nega-a.

Não se trata de estilo político, de sarcasmo ou de dureza retórica. Trata-se de substância. A política mede-se pelas consequências reais das ideias que promove. E quando essas ideias conduzem à banalização da morte, à fragmentação da família e à dissolução de qualquer referência moral objectiva, estamos perante uma derrota civilizacional e também espiritual.

A cruz não é um símbolo confortável. Nunca foi.

Mas também não é compatível com projectos políticos que fazem da transgressão moral uma bandeira e da negação da natureza humana um dogma. Quem afirma que Jesus “jamais se compatibilizaria” com determinadas figuras políticas deveria perguntar-se, com honestidade, se Ele se compatibilizaria com uma sociedade que elimina os seus filhos antes de nascerem e abandona os seus idosos quando se tornam incómodos.

Há ainda uma contradição que não pode ser ignorada: o discurso de ódio dirigido aos apoiantes do CHEGA, bem como aos seus líderes, é o oposto do maior mandamento ensinado por Cristo o mandamento do amor. Estigmatizar, ridicularizar ou desumanizar cidadãos por causa do seu voto ou das suas convicções políticas não é virtude moral; é a negação directa do Evangelho.

Jesus foi claro: amar a todos, começando precisamente pelos que pensam diferente de nós, pelos que nos criticam e até pelos nossos inimigos.

Quem invoca o nome de Cristo para justificar ódio político, exclusão moral ou superioridade ética trai o coração da sua mensagem. O amor cristão não é selectivo, nem ideológico. É exigente, universal e incompatível com a demonização do outro.

Cristo não precisa de ser apropriado por nenhum partido. Mas também não pode ser sequestrado por uma esquerda moralmente dominante que o transforma num símbolo vazio, desprovido de verdade, exigência e transcendência.

Quem é seguidor do mestre Marx, que hoje veria em Cristo um charro, uma linha de cocaína ou um chuto de heroína, não passa daquele que, com uma trave no olho, vê o cisco no olho do irmão; ou daquele que, andando nu na rua, acusa o conservador de andar roto.

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