A Venezuela e a Doutrina “DONroe”
A detenção de Nicolás Maduro por forças americanas e a subsequente intervenção militar na Venezuela não surpreendeu quem acompanha a retórica de Donald Trump. Durante anos, o presidente americano deixou claro que o regime venezuelano era inaceitável e que os Estados Unidos não hesitariam em agir. A justificação oficial — tráfico de droga, alegadas ligações a organizações criminosas — é tão transparente quanto foi em 1989, quando os EUA invadiram o Panamá para depor Manuel Noriega. Ninguém acredita que isto seja verdadeiramente sobre narcotráfico. Até porque se fosse, a Venezuela seria um alvo pouco ortodoxo, sendo que a esmagadora maioria das drogas que entram em solo americano são traficadas de países como a Colômbia, o Peru e a Bolívia. Mais, se esse fosse o motivo, mal se entenderia o perdão presidencial que Trump ofereceu ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernandez. É sobre controlo: controlo de recursos naturais, controlo de uma posição estratégica privilegiada, controlo do “backyard” americano.
O paralelo com a invasão do Panamá é óbvio, mas há algo mais profundo a acontecer. Trump, que se apresenta como isolacionista e defensor do “America First”, longe de ser um presidente avesso à intervenção externa, apenas recusa intervir onde não reconhece interesse direto ou legitimidade histórica. Recusa financiar a Ucrânia, põe em causa o compromisso com Taiwan e retira-se de acordos multilaterais com aliados históricos. Mas quando se trata da América Latina, age de forma perentória e unilateral. Porquê? Porque Trump está, consciente ou inconscientemente, a ressuscitar a Doutrina Monroe.
James Monroe, quinto presidente dos Estados Unidos, estabeleceu no século XIX um princípio simples: as Américas são território político........
