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No rescaldo da campanha

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07.02.2026

Na sequência das últimas semanas de campanha presidencial, parcialmente eclipsadas pelas catástrofes naturais que atingiram o país, foram-se acumulando argumentos curiosos e formulações retóricas que importa analisar. Não são pormenores: são pistas reveladoras sobre a forma como vários actores entendem a democracia.

Bastou que uma parte significativa das elites políticas de centro e centro-direita declarasse apoio a António José Seguro para que surgissem acusações de condicionamento do voto do povo, sobretudo vindas do espaço político que apoia André Ventura, mesmo que de forma envergonhada.

A acusação é grave e absurda. Não houve qualquer coerção, violência ou intimidação por parte de António José Seguro ou dos seus apoiantes ao longo da campanha eleitoral. O voto continua secreto: cada português faz o que quer no segredo da cabine de voto, mesmo que todos à sua volta pensem o contrário. Apoios públicos, manifestos e artigos de opinião fazem parte da esfera pública da democracia liberal desde a sua origem. Não há aqui intimidação, apenas liberdade.

Na verdade, o incómodo não está no acto de apoiar, mas na direcção do apoio. Se Cavaco Silva, Ramalho Eanes, Paulo Portas ou Gouveia e Melo tivessem apoiado André Ventura, ninguém falaria em “policiamento do voto”. Pelo contrário: esses apoios seriam celebrados como conversões iluminadas ou mostras de realismo político.

Houve, aliás, um momento revelador numa entrevista televisiva recente: a jornalista Clara de Sousa perguntou a Ventura se, caso a maioria dos portugueses votasse no seu adversário, passariam também estes eleitores a ser “do sistema”. A pergunta ficou sem resposta.

Esta ambiguidade não é acidental. Reflecte não apenas subterfúgios retóricos, mas também fundamentos ideológicos. Faz parte da tensão fundamental dos partidos populistas: o povo é soberano enquanto confirma a narrativa; quando a contraria, transforma-se em massa manipulada, enganada ou cúmplice das elites. Frequentemente, quando isso acontece, deixa mesmo de integrar o “povo verdadeiro”. Temos então cidadãos reais e cidadãos que não são bem cidadãos, isto........

© Observador