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A sociologia do eleitorado

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20.02.2026

Em 1967, Seymour Martin Lipset e Stein Rokkan publicaram um ensaio influente sobre partidos e eleições, onde afirmaram que “os sistemas partidários [europeus] dos anos 1960 reflectem, com poucas excepções, a mesma estrutura de clivagens sociais dos anos 1920”. Hoje, dificilmente alguém defenderia que os sistemas partidários dos anos 2020 ainda espelham as clivagens dos anos 1960.

Apesar da volatilidade eleitoral e dos ciclos políticos, o voto não é um puro acaso. As condições sociais e económicas moldam as experiências de vida, os laços sociais e atitudes. E deixam marcas profundas nas nossas preferências políticas. No imaginário do pós-guerra, o mapa parecia simples: classe e religião organizavam o voto; trabalhadores e classes populares inclinavam-se para a esquerda, proprietários e pequena burguesia para a direita. Era, claro, uma simplificação: sempre houve operários conservadores e burgueses de esquerda. Mas, em média, a associação entre posição social e preferência política era suficientemente forte para fazer da classe o eixo principal da competição partidária.

Para compreender a política de hoje, ajuda conhecer o trabalho de Herbert P. Kitschelt e Philipp Rehm. A sua ideia é simples: já não basta olhar apenas para a classe social, como nas velhas sociedades industriais. Mas também não devemos reduzir tudo ao diploma universitário, uma redução tentadora, mas enganadora. É preciso cruzar as duas coisas: rendimento e escolaridade (educação superior).

Rendimento e escolaridade empurram as preferências políticas em direções diferentes. O rendimento continua ligado ao interesse material: em média, quem tem menos tende a preferir mais proteção social e redistribuição; quem tem mais tende a preferir menos impostos e mais espaço para o mercado. Isso não mudou. E, apesar de todo o ruído da política cultural e de ter perdido peso relativo, a política material continua a pesar muito na hora de votar.

Já a educação superior funciona ao mesmo tempo como marcador socioeconómico em sociedades pós-industriais, mas também como um marcador cultural. Em média, a frequência do ensino superior está associada a um maior contacto com ambientes diversos e internacionalizados, normas mais universalistas e a profissões do conhecimento e dos serviços, que tendem a favorecer atitudes mais progressistas. Pelo contrário, percursos com menos escolaridade, muitas vezes ligados a maior insegurança laboral e menor reconhecimento social (status), tendem a correlacionar-se com posições mais conservadoras e nacionalistas. A política contemporânea complica-se porque estas duas forças – rendimento e educação – nem sempre apontam na mesma direção: surgem grupos com preferências “cruzadas”.

Kitschelt e Rehm dividem o eleitorado em quatro grupos, baseados no cruzamento do rendimento com a educação superior. Este mapa é muito mais útil para compreender a política contemporânea do que olhar apenas para educação ou apenas para rendimento.

Entre 1960 e 2020, a sociologia do eleitorado mudou de forma inequívoca. O tradicional bloco popular com baixa escolaridade e baixo rendimento corresponde ao mundo do operariado fabril (hoje muito menor), mas sobretudo dos serviços de baixa qualificação: logística, restauração, limpeza, cuidados e comércio. Durante décadas foi o pilar da esquerda. Hoje, este grupo quase a meio entre esquerda e direita. A razão é simples: na economia tende a preferir redistribuição e proteção social, mas na cultura inclina-se frequentemente para posições mais conservadoras. Resultado: é um eleitorado cada vez mais disputado, pressionado em direcções políticas opostas.

O quadrante com baixa escolaridade e alto rendimento é frequentemente esquecido. Não são os “ricos” que muitas vezes temos em mente, mas são os pequenos proprietários e os ofícios rentáveis sem precisar de credenciais universitárias: comerciantes e restauradores por conta própria, pequenos empresários de construção, vendedores imobiliários, eletricistas/técnicos por conta própria com sucesso financeiro, etc. Hoje, em termos relativos, é o grupo mais inclinado para partidos de direita: combina preferências culturais menos progressistas com uma visão económica mais pró-mercado.

Uma mudança reveladora está no grupo de alta escolaridade mas baixo rendimento. Quando a frequência universitária era uma coisa rara, este grupo era residual (menos de 5% do eleitorado total); hoje já vale, em média, cerca de 15–20% do eleitorado. São pessoas com diploma, mas sem riqueza e com rendimentos modestos: enfermeiras, educadoras de infância, assistentes sociais, psicólogos, jornalistas, muitos trabalhadores do terceiro setor (e uma parte relevante do setor público). É, hoje, o grupo que mais consistentemente vota à esquerda: tende a ser progressista na cultura e, ao mesmo tempo, defensor de redistribuição e proteção social.

Por fim, o grupo com alta escolaridade e alto rendimento inclui profissões como médicos especialistas, advogados, quadros da banca e seguros, gestores, e engenheiros em setores dinâmicos como a tecnologia. Era um território clássico da direita, mas tal como a esquerda perdeu o monopólio do grupo com baixo rendimento e educação, também aqui a direita perdeu o monopólio. Tornou-se mais ambivalente: é socialmente cosmopolita e liberal, o que a aproxima de partidos de centro-esquerda ou de esquerda liberal, mas economicamente mais liberal, que o puxa para a direita. O seu voto depende, portanto, do peso relativo que cada eleitor e em cada contexto dá à economia e à dimensão cultural e, também, de como os partidos de cada sistema combinam essas duas dimensões no seu discurso político.

Este quadro descreve tendências médias globais, obtidas com dados das várias democracias europeias e anglo-americanas desde 1960 até 2017. Claro que há diferenças entre países: diferentes estruturas económicas e mercados de trabalho, níveis de desigualdade e imigração variados. Durante muito tempo, em Portugal, a divisão esquerda/direita era pouco ancorada na classe social. E o país manteve, também, um défice crónico de ensino superior. Ainda assim, as transformações transnacionais que descrevi em cima começaram a ganhar terreno no nosso país.

Com esta sociologia do eleitorado em mente, podemos agora analisar duas observações muito repetidas na política contemporânea, portuguesa e internacional.

A primeira é a tese popularizada por Thomas Piketty, no seu trabalho Political Cleavages and Social Inequalities: a transformação da esquerda numa “esquerda Brahmin”, isto é, num campo dominado por uma elite escolarizada e desligada das classes populares. Há dois factos reais: a esquerda cresceu entre os mais educados e perdeu força relativa na classe de baixos rendimentos e escolaridade. No entanto, estes factos devem ser interpretados juntamente com outras mudanças reais. O erro de Piketty (e que muitos outros cometem) é assumir que uma educação universitária é hoje sinónimo de pertencer a uma elite, tal como era há 70 anos. A massificação do ensino superior, a transformação das profissões e a entrada das mulheres no mercado de trabalho criaram um grupo cada vez maior de licenciados com rendimentos médios e baixos. Geralmente, correspondem a profissões que exigem graus superiores, ligadas à educação e à saúde, mas também à cultura e ao terceiro sector. Eu não considero que enfermeiras ou assistentes sociais são da classe Brahmin ou das elites intelectuais e culturais.

Outro erro é confundir a tendência decrescente em termos relativos (a esquerda atrai uma percentagem menor do grupo baixa educação/baixo rendimento do que antigamente, quando era absolutamente dominante nesta classe) com uma análise sobre a divisão actual deste eleitorado: na realidade, ele reparte-se de forma parecida entre esquerda e direita. Talvez não pareça nos retratos narrativos feitos por jornalistas e escritores em zonas suburbanas industriais, mas há um erro de percepção que muitos (incluindo Piketty) cometem: achar que o operariado fabril maioritariamente masculino dos anos 1950 e 60 continua a ser a grande massa trabalhadora da classe baixa hoje. Essa imagética gera um viés analítico que ignora que, para além de operários fabris, há inúmeras empregadas de limpeza, assistentes de acção educativa, ou cuidadoras em lares de idosos que também são da classe popular.

Olhando para os dados, os dois partidos que mais atraem e representam as classes populares em Portugal hoje são o PS e o Chega (ambos com 23% dos votos). Quanto ao PS, sabemos que 66% do seu eleitorado tem apenas o nono ano (ou menos), 86% não tem ensino superior e 57% afirma que é muito difícil viver com o rendimento que tem. No que toca ao Chega, sabemos que 83% não tem educação superior e 60% diz que é muito difícil viver. Esta tendência nacional espelha muito bem a tendência descrita por Kitschelt e Rehm sobre a divisão do eleitorado de baixa educação e baixo rendimento entre esquerda e direita.

A outra ideia bastante repetida é a de que há, hoje, uma maioria sociológica de direita em Portugal. Há uma maioria do eleitorado que votou em partidos de direita nas últimas legislativas. Mas isso não significa que haja uma maioria sociológica, no sentido clássico do termo – um bloco relativamente coerente de interesses e preferências. Os grupos sociais que compõem hoje o eleitorado da AD, da IL e do Chega são extremamente heterogéneos. Em termos de educação e rendimento, mas também de preferências culturais e económicas. Ao contrário do eleitorado do Chega, 60% do eleitorado da AD diz que está confortável do ponto de vista financeiro e 36% do eleitorado da IL tem ensino superior.

Simplificando, o eleitorado do Chega combina a procura de proteção social e maior intervenção do Estado (por vezes com reflexos protecionistas e tolerância ao aumento de despesa pública) com uma agenda dura em imigração, ordem e segurança. Já o eleitorado da AD e da IL tende a desejar reformas económicas numa direção mais liberal e pró-mercado. E, caso o PSD decida encostar-se demasiado à direita em matérias socioculturais, muitos podem fugir para partidos mais cosmopolitas e internacionalistas. Como se vão entender? Não há uma maioria “reformista” em Portugal. Pode haver soma parlamentar, mas não há, automaticamente, uma maioria social e programática. A não ser que alguém decida trair o seu próprio eleitorado.

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