Indignação para o acessório, apatia para o essencial
Vivemos num país curioso. Um país que se inflama com facilidade, que reage, que comenta, que julga. Um país que não hesita em levantar a voz perante a injustiça quando ela surge no ecrã, amplificada por um programa de televisão ou por uma sequência de stories. Somos rápidos a condenar, ágeis na indignação, quase instintivos na defesa de valores quando a narrativa é clara, quando há protagonistas definidos, quando o conflito nos é servido com emoção e proximidade. Mas, paradoxalmente, esse mesmo país revela uma apatia inquietante quando a injustiça não é encenada, quando é estrutural, quando é política, quando é nossa.
Importa dizer, com clareza, que esta reflexão não pretende desvalorizar os temas que muitas vezes, ainda que de forma indireta, são expostos nesses formatos televisivos. O que temos assistido levanta questões sérias, nomeadamente ao nível da violência psicológica e das dinâmicas de poder em relações afetivas. Esses momentos, amplificados mediaticamente, podem ter um impacto real e positivo, dando força a muitas jovens mulheres para reconhecerem situações de abuso e, em alguns casos, para encontrarem coragem para sair delas. Essa dimensão não deve ser ignorada nem diminuída. Eu importo-me com isso. Importo-me com o efeito que estas narrativas podem ter na vida concreta de quem as vê.
Mas não é isso que está em causa. O que está em causa é a forma como concentramos atenção, energia e indignação quase exclusivamente nesses episódios mediáticos, enquanto permanecemos estranhamente passivos perante problemas igualmente graves, mas menos visíveis, que se desenrolam no plano........
