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Justiça às cegas: o algoritmo decide e o humano engana-se

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23.03.2026

Entramos numa era em que o destino de um arguido pode depender menos de uma testemunha ocular e mais de um rasto invisível de metadados ou de um histórico de navegação. A prova digital, outrora um acessório exótico nas salas de tribunal, é hoje o pilar central da justiça moderna. No entanto, há um perigo silencioso a crescer sob a superfície: enquanto nos deslumbramos com a precisão dos algoritmos, esquecemos que a sua interpretação continua a ser feita por humanos falíveis, muitas vezes perdidos num ‘grego’ técnico que ninguém se atreve a traduzir. Se não abrirmos esta caixa negra, corremos o risco de transformar a justiça num jogo de sombras onde a tecnologia decide, mas ninguém compreende realmente o porquê.

Ao longo das últimas décadas, assistimos a uma transformação radical na natureza do crime, e com ela, os métodos para o combater tiveram de se adaptar a uma velocidade vertiginosa. Em casos complexos de cibercrime ou em investigações de terrorismo que atravessam fronteiras, registos de chamadas, metadados de localização ou históricos de navegação são, muitas vezes, as peças que faltavam para desvendar o que realmente aconteceu. Mas trazer este mar de dados para dentro de um tribunal está longe de ser um processo simples. Sem um cuidado rigoroso na forma como esta informação é tratada e apresentada, corremos o risco de comprometer a equidade das decisões e a própria perceção que a sociedade tem sobre a justiça.

Um dos obstáculos mais evidentes prende-se com a barreira técnica. A forense digital é um campo altamente especializado, onde os peritos lidam com conceitos que podem parecer, para a maioria, autêntico ‘grego’. O grande desafio aqui é a tradução: como explicar pormenores técnicos complexos de forma que juízes, advogados e polícias os compreendam perfeitamente? Quando esta comunicação falha, abrem-se portas a interpretações erradas que podem levar a decisões judiciais injustas, o que acaba por desgastar a confiança das pessoas nas instituições.

Além disso, não podemos esquecer o fator humano. Por muito tecnológica que seja, a investigação forense digital é feita por pessoas, e as pessoas têm enviesamentos. Estudos mostram que os peritos podem ser influenciados,........

© Observador