menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Magnifica Humanitas: Encíclica ou Parábola Papal?

21 0
18.06.2026

Será que Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou aos seus discípulos que é legitimo1 forçar2 os outros a converterem-se à verdadeira fé3 para assim poderem escapar ao fogo4 do Inferno5 e irem para o Céu? Não será isso que Ele nos diz em Lucas 14, 23: “saí pelos caminhos e veredas e força-os a entrar para que se encha a minha casa”? E será que o nosso salvador nos terá ordenado a que nos odiemos6 uns aos outros? Não? Então porque terá dito “se alguém vem a mim e não odeia o próprio pai, a mãe, a esposa, os filhos, os irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo”? (Lc 14, 26)

A questão não é muito complicada e a resposta é um simples não! Nosso Senhor não nos recomendou nem a violar consciências nem a odiar. Antes pelo contrário. Mas então não será que algumas vezes Ele se deixou cair em contradições7, algo de vergonhoso num pedagogo, sacrílego num profeta? Se, de facto, o Seu ensinamento é que a salvação depende da resposta que cada um dá ao chamamento divino e do esforço que investe nessa resposta, como quando disse “esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não serão capazes” (Lc 13, 24), com que fim8 diz então aos seus servos “força-os a entrar”? E se o Seu segundo mandamento é “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22, 39), porque nos diz depois que para poder ser seus discípulos temos de odiar os que nos são próximos?

Como é óbvio, a contradição é aparente, não real. Apesar de o Logos ser todo poderoso, contradição não é algo que esteja ao seu alcance, não é algo que Ele consiga fazer. Contradições são algo destituído de sentido, não são coisa alguma, são aberrações lógicas e ontologicamente são nada. Não só nada é impossível a Deus, mas o nada é-lhe completamente impossível, Ele que É O Ser, Yahweh. E É O Ser que, pelo seu Amor infinito cria tudo, nos dá o nosso ser e o mantém em existência. Segundo o princípio da unidade da escritura, os livros sagrados possuem uma unidade fundamental, e as aparentes contradições requerem uma interpretação mais profunda. Analogia fidei, ou analogia da fé, é o princípio segundo o qual cada elemento da revelação divina, todos os ensinamentos ou passagens individuais da Sagrada Escritura, devem ser interpretados em harmonia com o conjunto da revelação, pois as verdades da fé formam uma unidade coerente e sem contradições.

Assim, aplicando estes princípios, a interpretação mais simples & razoável que preserva a coerência das afirmações de Nosso Senhor acima citadas, é notar que Ele estava a usar, no primeiro caso, de um estilo narrativo, a parábola, e no segundo, uma figura de retórica, a hipérbole, que usam analogia & exagero para expressar verdades importantes e profundas. Ensinamentos divinos em parábolas e hipérboles não são para ser seguidos à letra, mas em espírito, devidamente adaptados às circunstâncias concretas em que nos encontramos.

Ao magistério da Igreja, a autoridade e função de ensinar a sua doutrina que Nosso Senhor confiou ao Papa e bispos, deve-se aplicar o mesmo princípio. Devemos, com a caridade e respeito filial que o nosso malfadado cinismo nos permite, tentar interpretar os ensinamentos dos nossos pastores, as suas declarações e encíclicas, como sendo coerentes com os ensinamentos de Nosso Senhor, S. Pedro e os apóstolos, e dos seus sucessores, por muito difícil que isso seja. A recente encíclica de Sua Santidade, o Papa Leão XIV, sobre a guerra9, onde também faz uma longa, rica e muito oportuna digressão sobre a inteligência artificial, oferece-nos uma excelente oportunidade para o fazer.

Uma das afirmações que nesta encíclica mais atenção terá chamado é a que é feita no parágrafo 192: “Hoje, mais do que nunca, é importante reafirmar que foi superada a teoria da ‘guerra justa’, invocada com demasiada frequência para justificar qualquer guerra, mantendo-se o direito à legítima defesa entendida no sentido mais estrito.” Como interpretar caridosamente este ensinamento de que a teoria da guerra justa foi superada atendendo a tudo o que Nosso Senhor, Papas e concílios nos têm ensinado ao longo dos séculos? Aquilo que, por exemplo, o Catecismo da Igreja Católica expõe, dos parágrafos 2307 a 2317, baseando-se e citando os........

© Observador