menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Tudo como Dante

18 1
11.02.2026

Segundo os especialistas na Bíblia, o Génesis, o livro que contém o relato do Dilúvio, terá sido redigido no séc. V a.C.. A Epopeia de Gilgamesh, que narra o mito que inspirou a história de Noé, terá sido composta na Babilónia entre 1800 e 2100 a.C. As cheias reais que terão inspirado essas lendas serão mais antigas. Significa isso que, durante cerca de 4 milénios, esses textos velhos terão bastado para ir lembrando a humanidade que, de vez em quando, vem uma inundação fora do comum.

Agora já não basta. Quando há uma nova cheia, parece que esquecemos facilmente o que aconteceu há vinte ou trinta anos. Assistimos a uma tarde de cobertura jornalística ininterrupta e percebe-se que a maioria dos jornalistas nunca viram sequer um bidé a transbordar, quanto mais um rio a galgar margens e a alagar casas. Para eles, é tudo novidade.

Só que há uma altura em que até mesmo os jornalistas têm de admitir que não, não é uma novidade. É quando, para preencher tantas horas dedicadas ao tema, começam a compilar listas de outras cheias “excepcionais” e “únicas”, que não são uma coisa nem outra, pois repetem-se com regularidade desde que há memória. Como, aliás, alguns dos entrevistados nas zonas afectadas lhes tentam dizer, sem grande sucesso. Já não é o primeiro nem o segundo popular que, quando lhe perguntam como está a reagir a esta situação extraordinária, explica que está a reagir da mesma forma que nas outras cheias que já presenciou desde que vive naquele local, umas maiores, outras menores, nenhuma sem igual.

Convido o leitor a visitar esta reportagem, guardada no arquivo da RTP, sobre as cheias que em 2001 atingiram o Ribatejo. É uma experiência curiosa. Vai reconhecer as localidades inundadas ou isoladas (são referidas Constância, Reguengo do Alviela, Valada do Ribatejo e outras de que agora ouvimos falar diariamente), vai reconhecer a figura do técnico especialista com dados factuais e rigorosos e vai reconhecer as........

© Observador