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Uma lágrima por Sócrates. O verdadeiro

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04.12.2025

Há uma possibilidade quase caricata e, ainda assim, inquietante, de que, em algum futuro onde a erosão cultural avance mais depressa do que a memória, os manuais de história possam insinuar, nem que de modo remoto ou descuidado, uma equivalência entre dois homónimos separados por vinte e cinco séculos e por uma distância ética que nenhuma métrica humana consegue medir. Não se trata de assumir que tal confusão exista. Trata-se de reconhecer o risco de que a simplificação do nosso tempo, essa máquina que esmaga subtilezas e reduz biografias a etiquetas, possa algum dia aproximar, por mera contiguidade nominal, o Sócrates que fundou a exigência moral da vida examinada e o Sócrates que passou pelo vértice do poder. Esse que veio depois a ser chamado a justificá-lo nos tribunais. Seria uma traição histórica: deixar insinuar, ainda que por sombra, que partilham mais do que o nome quando, na verdade, tudo os separa — o carácter, o destino, a relação com a verdade e o modo como enfrentaram o juízo, um perante a pólis, outro perante a justiça.

É um fenómeno que não deixa de causar um certo espanto, e talvez até uma compaixão sarcástica, observar que, no clima intelectual rarefeito do presente, se possa correr o risco de ver confundidos dois homens separados por vinte e cinco séculos e por um abismo moral intransponível. Para muitos dos mais jovens, atolados numa cultura de........

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