A meta-realidade burocrática
Nota prévia para tranquilidade das consciências administrativas:
Diz-se que o Sol, quando nasce, é para todos. A burocracia, sendo mais criteriosa, não. Quando nasce, vem já acompanhada do competente destinatário, das necessárias excepções, de três pareceres e, para os casos verdadeiramente importantes, de uma relação de confiança que pode até dispensar a vulgar maçada do contrato escrito.
Qualquer semelhança entre as considerações que se seguem e alguma trapalhada burocrática em que possa alegadamente surgir envolvido um qualquer representante do povo-cidadão, ministro, antigo director, alto funcionário ou simples servidor superior da causa pública, será, naturalmente, mera coincidência. Uma coincidência devidamente taxada, posteriormente documentada e, por fim, declarada perfeitamente limpa.
Até prova em contrário, bem entendido. A presunção de inocência é talvez o único procedimento administrativo que o Estado consegue aplicar aos seus próprios servidores com admirável prontidão.
A burocracia, dizem os tratados e repetem os espíritos mais confiantes na ordem das coisas, nasceu para civilizar. Houve um tempo (e não assim tão remoto) em que um papel bem dobrado, uma assinatura firme e um carimbo aplicado com gravidade bastavam para transformar o caos em governo. Era o reino do bureau, da mesa onde o mundo se alinhava, disciplinado, perante a razão.
Mas como sucede com tantas instituições respeitáveis, a burocracia adquiriu, com o tempo, uma certa independência de carácter. Deixou de servir o mundo e começou, discretamente, a exigir que o mundo a servisse. Foi assim que se estabeleceu uma curiosa relação, em que o cidadão dirige-se ao Estado para resolver um problema e o........
