Geração sem-abrigo
Estamos a criar a primeira geração pós-habitação da história moderna. Jovens que vão passar a vida inteira a saltar de quarto partilhado em quarto partilhado, de casa dos pais para casa dos sogros, de barraca debaixo da ponte para barraca debaixo da ponte, até eventualmente morrerem num t0 convertido em t4 algures no fim do mundo. Se tiverem sorte.
Dêem as boas vindas à geração sem-abrigo.
A fantasia de uma casa
Lembram-se quando ter habitação própria era uma coisa? Quando os vossos pais, com empregos medianos e estudos quase inexistentes, compravam casa? Quando o conceito não era ficção científica?
Isso era no passado. Estamos em 2026. As regras mudaram.
Hoje, um jovem em Lisboa ganha, se tiver sorte, 1200 euros. Um casa para arrendar custa, se tiver ainda mais sorte, 900 euros. Isto tudo assumindo condições otimistas (se não mesmo delirantes). Sobram 300 euros para as outras despesas da casa, para comer, transportes, e esse luxo extravagante chamado “existir”. Se for para comprar? Nem vale a pena fazer as contas. Seria como calcular à mão quanto tempo demora a chegar a Marte de bicicleta.
E não, o problema não é só em Lisboa. É fácil extrapolar os problemas da capital para o resto do país num país tão centralizado como o nosso, e a certa altura era o que acontecia. Mas já não é. O vírus espalhou-se para todos os cantos deste retângulo à beira-mar chamado Portugal, desde as capitais de distrito às vilas mais remotas. Já nem aquela aldeia abandonada no interior onde vivem três pessoas e uma cabra escapa. Até a cabra vai ter de partilhar casa.
O país conseguiu algo extraordinário: tornar a habitação inacessível em quase todo o território, mantendo simultaneamente salários baixos também em todo o território. Convergência territorial bem sucedida.
Quase que parece intencional, um programa político bem executado. Mas se fosse esse o caso, ironicamente estaríamos melhor. Com os nossos governantes, o plano teria certamente falhado.
O mito da mobilidade
“Mas podem ir........
