A TAP Azul
Chegou a novidade, a TAP deve dinheiro à Azul. Uma dívida nova, fresquinha, reluzente na sua impudência, a somar ao generoso catálogo de dívidas que a companhia vai acumulando com a devoção metódica de quem faz colecção de selos raros, só que em vez de selos são milhões, e em vez de um álbum é o Orçamento do Estado. Parabéns a todos. Mais um credor, mais uma linha no balanço, mais um episódio deste folhetim de luxo pago, como sempre, pelo suado contribuinte português, esse ser anónimo, resignado e eternamente generoso a quem nunca ninguém pediu opinião sobre o assunto.
Porque a TAP não escolhe os seus credores ao acaso. Há uma certa poesia na escolha da Azul, uma companhia brasileira, fundada por um empresário que percebe de aviação como negócio, não como ideologia. A ironia é maravilhosa, enquanto Portugal usa o dinheiro público para sustentar uma empresa que não consegue pagar as suas dívidas a privados, esses mesmos privados aguardam, pacientemente, na fila dos credores, ao lado dos bancos, dos fornecedores, dos trabalhadores despedidos e de uma lista crescente de entidades que fizeram o erro fundamental de confiar que a TAP pagaria o que devia. Spoiler, não pagou.
Porque é preciso dizê-lo com clareza e sem anestesia, a TAP não é uma companhia aérea. Nunca foi verdadeiramente uma companhia aérea, pelo menos não no sentido em que companhias aéreas existem para gerar valor, transportar pessoas com eficiência e, conceito aparentemente subversivo em Portugal, dar lucro. A TAP é uma filosofia. A filosofia de que o dinheiro público não tem dono, de que o Estado é um poço sem fundo, de que os prejuízos são sempre socializados com elegância e sem cerimónia, e de que a empresa existe, acima de tudo, para satisfazer as necessidades de quem a gere, sejam elas de emprego, de influência, de rotas........
