menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O meu cérebro bêbado de sangue

8 7
01.04.2025

Sempre de braço dado com a puta da ironia, a minha morte chegou a roçar o dia do meu nascimento, numa gaiata manhã de primavera.

A minha cabeça explodiu numas vésperas de Páscoa, simbolicamente tempo de sofrimento. Mas também de renascimento.

Comecemos pelo sofrimento: não sei bem o que dizer-vos sobre ele porque perdi as palavras. Perdi-me de mim. Só muito depois me foi dado saber que a dor vinha de um ducto [vaso] sanguíneo que tinha estoirado dentro do meu crânio. Mas esse conhecimento, toldado por um cérebro a boiar em sangue, só veio tarde.

Vivi semanas sujeita à ignorância do ponto de partida da minha morte. Talvez por isso tenhamos ficado só eu e ela: a morte. Talvez por isso tenha precisado de lhe falar. É que, compreendam, não se consegue falar com mais ninguém sobre a morte senão com a própria. Não sabemos quem é nem quando vem. Só sabemos que vem.

Mas prometi-vos ironia, e não era só uma figura de estilo.

Entro no serviço de urgências aos ziguezagues, comandada por um cérebro bêbado de glóbulos vermelhos em fuga, e digo, cheia daquela certeza só confiada aos pré-defuntos: “Estou a ter um AVC!”

Divido agora as culpas entre o conhecimento adquirido à custa de muita pesquisa, entrevistas e reportagens e a minha intuição. Sou jornalista e há muito tempo que acompanho temas de saúde, à época com 15 anos de experiência. Munida desses dois aliados que sempre gostei de acarinhar — o conhecimento e a intuição — achei-me no direito de fazer o meu próprio diagnóstico.

Pecado capital. A senhora de bata branca (desculpem, mas tenho demasiado respeito pelos médicos para lhe chamar isso) ficou tão ofendida com o facto de eu lhe dizer o que tinha, em vez de esperar pelo seu veredito, que me mandou para casa algumas horas depois, com um pacóvio diagnóstico de enxaqueca.

Não me tinha em pé. Não via o caminho. Não era eu. Não passava de um molho de ossos (mal) articulados.

Ando há anos a chafurdar nas palavras em busca de um sentido para a minha morte prematura, mas continuo sem conseguir nomear os atos desta pessoa. Talvez porque não........

© Observador