O sossego dentro do desassossego numa UCI
Colocando os pontos nos “is” e para que não haja dúvidas, será importante referir que quando nos é pedido para refletirmos sobre uma profissão, seja ela qual for, devemos partir do pressuposto de que é bem desempenhada pelos seus intervenientes. Todos sabemos que bons e maus há em todo o lado. Aqui quero focar-me no trabalho e nos que o fazem bem feito, com o decoro e a dedicação que ele merece.
Gostava de estruturar o discurso com uma organização mental e emocional do que aqui gostava de deixar refletido, no entanto, quando falo da minha profissão, o meu coração alinha-se com o meu cérebro e as palavras começam a brotar, quase que desorganizadas porque quero dizer tanto em tão pouco tempo, quero que entendam o que vai na alma de forma tão intensa, que se torna difícil que o faça de forma sistematizada.
Admiro a enfermagem de forma transversal, do centro de saúde aos intensivos, passando pelo pré-hospitalar, urgência, internamento, consulta, bloco operatório, entre outros. Em todos estes locais ser enfermeiro é ciência, é humanização, é saber ser, saber fazer, saber estar, saber saber. No entanto os cuidados intensivos são o meu lugar e soube-o desde primeiro dia que pisei este local de cuidado ao doente crítico.
O doente crítico anda pelo hospital, às vezes perdido outras vezes encontrado, e graças à evolução da ciência cada vez mais encontrado, sendo que os intensivos serão o local privilegiado onde devem estar, dado o seu estado de saúde agravado/precário e as necessidades de suporte de órgão que daí possam advir, com a respetiva necessidade de monitorização e vigilância.
Trabalho para as pessoas em situações de fragilidade e vulnerabilidade… foi isso que escolhi fazer, trabalho para os outros. Escolhi trabalhar num dos momentos mais difíceis da vida do ser humano que é o internamento nos cuidados intensivos. Ser enfermeiro nos cuidados intensivos é ter a oportunidade. É ter o tempo. É poder fazer mais e melhor.
Andamos por aí, ou deuses ou avestruzes, a pensar que não nos acontece, mas um dia sem aviso lá estamos nós e então é simples, basta pensar “e se fosse eu, ou os meus?” Credo!! Por favor acertem no diagnóstico, por favor prescrevam o tratamento certo, por favor não falhem com a terapêutica, por favor não me deixem ter dor, por favor dêem-me a mão, por favor deixem os meus virem até mim, por favor ajudem-nos para que eles me possam ajudar, por favor respeitem a minha privacidade, por favor expliquem-me tudo, por favor, por favor, por favor…
Existe toda uma necessidade de estar disponível, assente na ideia do sofrimento mais atroz que estas pessoas do outro lado estão a viver, na maioria das vezes de forma inesperada sem........
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