Poder tecnocrático e o declínio da responsabilidade
Temos uma lei e, segundo essa lei, ele deve morrer. – o aviso que atravessa o relato da Paixão – Jo 19,7.
Quando hoje, em qualquer país europeu, algo corre manifestamente mal – um idoso que fica horas à espera porque um protocolo obrigatório de triagem telefónica recusa um caso obviamente urgente; uma família enredada num algoritmo de “fraude” nos apoios sociais, sem nenhum funcionário com poder real para corrigir o erro, como no escândalo dos subsídios infantis nos Países Baixos; ou uma obra pública que queima milhões enquanto todos os responsáveis garantem que “foi tudo feito segundo as regras” – ouvimos sempre o mesmo refrão: “foi o sistema que decidiu”. Quanto mais a política e as instituições se tornam tecnocráticas, menos gente parece disposta, ou sequer capaz, de dizer: “a responsabilidade é minha”.
Por tecnocracia não entendo simplesmente o recurso à tecnologia ou ao parecer de especialistas. Refiro‑me à transferência silenciosa do verdadeiro juízo para sistemas: algoritmos, protocolos, “boas práticas”, enquadramentos regulatórios e critérios “baseados em evidência” que pré‑decidem os resultados. No papel, tudo isto parece neutro, eficiente e justo. Numa sociedade plural que já não partilha um vocabulário moral comum, apelar “às regras” pode parecer a única forma de evitar conflitos abertos. Mas há um preço. Quando a lei e o procedimento se tornam o nosso principal vocabulário moral, facilmente passam a desempenhar o papel do escudo que se ouve no próprio relato da Paixão.
Como já procurei mostrar, a propósito da erosão da linguagem moral e da gramática esquecida do dever, há aqui algo de mais profundo. Numa........
