Liberdade, maldade e dissolução: uma reflexão sobre o Homem
O Homo Sapiens, este bípede erigido sob a insustentável leveza do Ser, vive acorrentado à miragem filosófica que lhe arroga simultaneamente a dignidade e a miséria da escolha. Desde Agostinho de Hipona que se proclama o livre-arbítrio como uma concessão divina: o mal não como substância, mas como privação do bem, fruto de uma vontade mal orientada. Uma dádiva, dizem, que nos eleva acima da pura mecanicidade da matéria. Mas que arquitectura perversa é esta que nos dota de liberdade para, invariavelmente, cairmos na abjecção?
A maldade não é uma anomalia no tecido da Criação; é a sua constante mais estável e, paradoxalmente, a mais definidora daquilo a que chamamos liberdade.
O relato do Genesis não descreve apenas uma queda, mas a inauguração desta ambiguidade. A Árvore do Conhecimento não impõe uma proibição arbitrária; mas abre, antes, o campo da possibilidade. Onde antes havia inocência, surge, posteriormente, a consciência; ou seja, onde havia apenas a noção de unidade, nasceu a bifurcação. A serpente não introduziu o mal, mas introduziu a possibilidade da escolha.
E é nessa escolha que reside a tragédia. Caim, o primeiro fratricida, não é apenas o símbolo da violência primordial, mas a manifestação inaugural de uma liberdade inclinada para o péssimo. “O pecado jaz à porta”, adverte o texto bíblico, mas a sua força não anula a sua responsabilidade; antes a reforça. Assim, o homem está condenado a escolher, mesmo quando a sua natureza o arrasta para o erro.
E é neste ponto que emerge o problema clássico da Teodiceia: como conciliar um Deus omnipotente, omnisciente e omnibenevolente com a persistência do mal? A resposta de Leibnitz — a de que vivemos no melhor dos mundos possíveis — soa hoje menos a solução do que a resignação. Este não é o melhor dos mundos; é apenas o mundo que........
