menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O interdito luminoso: telemóveis, redes sociais e proibir

22 123
14.02.2026

Há objetos que não cabem na mão e, no entanto, é na palma da mão que se instalam. Um telemóvel pousado em cima da mesa de jantar é, ao mesmo tempo, ferramenta e tentação; janela e fechadura; promessa de mundo e fuga do mundo. Quando a inquietação cresce, a resposta que parece mais nítida costuma ser esta: proibir. Proibir telemóveis. Proibir redes sociais. Proibir, como quem apaga uma luz e espera que a noite resolva o que a vida complicou.

A proibição, porém, nunca foi apenas um “não”. Sempre foi uma forma de desenhar fronteiras entre o permitido e o perigoso, entre o “nós” e o caos, entre o que se tolera e o que se teme. E quando o alvo são jovens adolescentes, esse “não” ganha uma gravidade particular, porque mistura cuidado com controlo, proteção com desconfiança, pedagogia com pânico. É por isso que vale a pena recuar antes de avançar para a geografia concreta dos governos que, hoje, tentam realmente desligar a ligação.

A proibição nasce mais antiga do que a lei escrita. Antes de haver códigos, houve tabus: interditos que não precisavam de explicação, porque a própria comunidade era a explicação. O que está em causa, desde cedo, é uma ideia simples e terrível: há coisas que nos ultrapassam, e por isso temos de as limitar. A proibição é, muitas vezes, o gesto que transforma medo em ordem. No século XX, Michel Foucault oferece um aviso mais inquietante: sobre esta temática, onde mostra que a proibição não é apenas um muro, é um método de fabricar comportamentos. O “não”, não desaparece; entra no corpo sob a forma de vigilância, culpa, punição, normalização.

E há ainda um paradoxo antigo, quase doméstico, que atravessa todas as épocas: o interdito intensifica o desejo. A proibição pode proteger, mas também pode seduzir. Ao dizer “isto é perigoso”, ela diz também “isto é importante”. Ao esconder, ilumina. Por isso, as grandes cruzadas contra livros, músicas, filmes ou substâncias raramente apagam o objeto, mas mudam-no de lugar, empurrando-o para a sombra onde cresce sem conversa, sem mediação, sem regra interior.

É aqui que entram os adolescentes: seres em construção, laboratórios vivos de autonomia. Proibir tecnologia a quem está precisamente a aprender a governar-se tem um risco óbvio: substituir a autorregulação pela evasão. E quando a evasão se torna hábito, a aprendizagem moral fica por fazer.

Por isso, antes de discutirmos “telefones” e “redes sociais”, é útil distinguir duas proibições que se confundem com facilidade. A primeira é contextual: impede o uso num espaço específico, por uma razão específica, por exemplo, durante o tempo das aulas. A segunda é existencial: pretende governar a vida privada de forma geral, como se o decreto fosse capaz de entrar em casa e sentar-se no sofá. A proibição contextual pode ser um instrumento pedagógico, porque a escola é um lugar de atenção, de convivência, de treino de pensamento, e a atenção é finita. A proibição existencial, pelo contrário, tenta domesticar um ecossistema inteiro (social, emocional, económico) com uma regra simples. É aqui que o gesto de “proteger” pode escorregar para uma fantasia de controlo.

Um exemplo claro de proibição contextual está em França, onde a lei de 3 de agosto de 2018 enquadra a interdição do uso de telemóveis e equipamentos semelhantes em escolas, prevendo exceções e usos autorizados. Este tipo de regra não pretende “curar” a sociedade, mas pretende tornar possível uma prática que se pode resumir a aprender sem interrupção constante, conviver sem o desvio permanente para fora da sala.

Mesmo estas medidas, porém, precisam de ser lidas com sobriedade. Quando........

© Observador